Na primavera do ano de 1.201, o Mestre Shinran desceu o Monte Hiei onde estudava e dirigiu‐se para o famoso templo de Toho, conhecido como Pavilhão Hexagonal (Rokkaku-­do), considerado o primeiro templo budista do Japão.

Neste templo, Mestre Shinran ficou em retiro durante o período de 100 dias, meditando e ansiando libertar-­se dos pesados karmas. Na madrugada do 95° dia, ele teve um sonho revelador. Apareceu-­lhe a figura do príncipe Shotoku, orientando-­o. A partir dessa vivência, decidiu ir para a cidade de Yoshimizu, ao encontro do Mestre Honen.

Este foi o encontro com o verdadeiro Mestre, que propiciou a Shinran o encontro consigo próprio, com seu verdadeiro Eu. Neste instante único, todo o seu passado e todos os fenômenos do universo foram inteiramente transformados. Mestre Shinran teve acesso ao Repositório Universal da Sabedoria (Hôzô).

Relatando sobre esta instância de sua vida, Mestre Shinran disse: “no primeiro ano da era Ken‐nin (1.201), abandonei todas as práticas mistas e me voltei para o Voto Original do Buda Amida”. Eu sou da opinião que quando o ser humano corta relações com o seu passado e seu futuro, perde o significado da sua biografia. Sem dúvida nenhuma se olharmos para o nosso passado vamos nos deparar com inúmeros fatos que nos causaram aversão e vergonha. A nossa atitude perante o passado é de tentar esquecê-­lo. Tentamos viver o presente como se não tivéssemos nenhuma relação com o nosso passado. Mas quando menos se espera o passado nos invade, ficamos confusos, e novamente tentamos ocultar o passado. Se não aceitarmos nosso passado, poderemos cair no erro de nos tornarmos fatalistas e acomodados. Mas se reatarmos as relações com o passado, então poderemos crescer como seres humanos.

No Budismo Shin temos a palavra Nembutsu, que podemos desmembrar em Nem e Bustu. O significado da palavra ”Nem” é recordar, lembrar, ter em mente, etc. “Nem” neste contexto significa o chamado para despertar a consciência obscurecida pelo ego para a realidade da iluminação. Ao ouvirmos este chamado, aceitamos o nosso passado e compreendemos que tudo era uma preparação para o auto-­conhecimento. Então tudo que achávamos que era por acaso torna-­se destino (fato significativo). A partir desta compreensão poderemos determinar nossa missão futura.

Neste processo de auto-­conhecimento, a fé é uma qualidade indispensável a ser adquirida. A fé no Budismo não remete a ter fé em alguma coisa, mas implica em ter um coração transparente, transparência em todos os sentimentos e atos.

Esta postura nos remete a aceitar o passado e preparar com fé o futuro. No budismo, com a prática do Nembutsu teremos a possibilidade de unificar e realizar a vida, o destino e a nossa missão.

O passado foi constituído por decisões tomadas. Da mesma forma o futuro se faz por decisões tomadas agora no presente. É necessário ter uma percepção realista, não fantasiar sobre o passado e nem ter ilusões sobre o futuro, vivendo plenamente o presente. Este caminho de introspecção, passando pelo processo de conversão, torna o ser humano pleno e vitaliza a vida social.

Somos gratos ao Mestre Shinran e aos patriarcas pelo ensinamento que nos transmitiram.

Rev. Masao Ryose 

Rompendo as Amarras do Ego Uma introdução ao Budismo Shin

Tradução de Carlos Kajiya

Edição do Instituto Budista de Estudos Missionários Tempo Nambei Honganji