O Buda Shakyamuni não se ateve em discutir questões metafísicas, tais como a existência da vida depois da morte, a distinção entre corpo e alma e a infinitude do eu e do mundo. Antes de abordarmos essas questões, temos que refletir sobre a nossa existência, ora em vivências de prazer, ora em vivências de sofrimento, pois tal é a situação básica como seres humanos. Mas, com o cuidado de não incorrermos em infindáveis discussões.
O seguinte conto expressa muito bem esta dicotomia: Uma pessoa é flechada e ferida, necessitando de socorro. Se ficar questionando sobre a origem da flecha, de que material a flecha é constituída, ele morrerá. Urge primeiro tirar a flecha e tratar o ferimento. Assim, da mesma forma, o ser humano deve deixar de lado as discussões intelectuais e direcionar-se na questão fundamental da existência de seu ser.
No Tratado sobre a Perfeição da Sabedoria temos expressa esta atitude de ir ao essencial, nas seguintes palavras atribuídas ao Buda Shakyamuni: “Eu prego o ensinamento (Dharma) para que os que estão presos na roda de Samsara (envelhecimento, doença e morte) possam transcender este estado”. Esta forma direta e sincera era utilizada pelo Buda em suas pregações. Quando enfrentamos situações difíceis, nos colocamos fora do “problema” em discussões infindáveis. Parecendo-nos que este problema não diz respeito à nossa vida.
O Buda foi terminantemente contra a atitude de explicações superficiais, inquirições ou interpretações intelectuais. Por exemplo, enquanto não enfrentarmos com sinceridade a questão do medo da morte, certamente teremos a tendência comodista de aceitar uma existência póstuma.
Referente a questão fundamental que é a morte, o Buda nos ensinou o caminho da libertação de todo o sofrimento e sentimento negativo que possamos ter em relação a esta questão. O problema está no presente, urge ser resolvido aqui e agora e não ser protelado para depois da morte.
A libertação do sofrimento foi o caminho percorrido e pregado pelo Mestre Shinran, ou seja, o caminho de libertação do ciclo de nascimento e morte. Atualmente vivemos graças a nossa capacidade de estudo, a força física que temos, aos recursos econômicos que possuímos, ao poder, etc. As capacidades inerentes em cada atividade não se restringem a cada indivíduo, mas são forças que estão atuando em todas as pessoas, despertando-‐as e vivificando-as. Esta força inerente à todos os seres vivos no linguajar budista denomina-se “Voto Original”. Na prática, isso não significa que devemos ter fé no Voto Original, mas sim, despertar para o fato de sermos vivificados pelo Voto Original. É dito que o Mestre Shinran, graças ao encontro com o Mestre Honen, despertou para a profundidade do “Voto Original” e a importância de ser por ele vivificado. A atividade do “Voto Original” é despertar-nos para a realidade da vida do Eu e a transitoriedade e finitude do ego.
O “Voto Original” é um anseio sincero do ser humano, sua ação desperta a nossa verdadeira natureza humana. Este anseio pelo despertar é NAMU AMIDA BUTSU; significando reverência ao Buda Amida. NAMU AMIDA BUTSU é ao mesmo tempo invocar o nome do Buda Amida e é também um chamado para o verdadeiro sentido da vida. Quando conseguimos perceber que a vida é algo que transcende ao pessoal, sendo uma dádiva recebida por cada ser vivo, então, desistiremos de pensar que vivemos graças às nossas capacidades de estudo, força física, recursos econômicos, etc…
Esta nova percepção do mundo e de si cria uma paz interior que se reflete na ação perante a vida, em seu cotidiano.
O Mestre Shinran, baseando-se nos ensinamentos do Mestre Honen, pôde despertar para essa realidade profunda.
Rev. Masao Ryose
Rompendo as Amarras do Ego Uma introdução ao Budismo Shin
Tradução de Carlos Kajiya
Edição do Instituto Budista de Estudos Missionários Tempo Nambei Honganji

Que todos nós possamos despertar para o poder do 18º VOTO e receber o Coração Confiante.