“Sob os Céus e sobre a Terra ninguém é mais respeitável do que Eu”

Vejamos agora como o Budismo encara tais questões, em relação à apropriação da vida. Transcender a morte é um dos problemas básicos do ser humano. A medicina e a biologia desenvolveram-se como disciplinas científicas que tentam objetivamente resolver o problema da dor e da inquietação proporcionadas pela morte. Já a filosofia e a religião com as quais temos mais afinidade, encaram isso como uma questão fundamental. Nos textos sagrados é dito que o Buda, ao nascer, caminhou sete passos e disse: “Sob os céus e sobre a terra, ninguém é mais respeitável do que Eu”.

Eu, como budista creio nisso. Nas biografias de Buda e dos grandes mestres como Honen e Shinran estão embutidos os Ensinamentos. Mais do que a veracidade dos eventos nelas relatados, o que importa é o Ensinamento por elas veiculados. A passagem acima relatada nos aponta para o caráter respeitável da vida de cada um de nós, da vida de todos os seres viventes. Isso é ensinado através da narrativa do nascimento de Buda, ou seja, é o ponto de partida de todo o Budismo. O primeiro preceito Budista é não matar. Nós somos obrigados a matar para sobreviver, e em função disso, sofremos já que não se deve matar. Devemos encarar a morte dos seres necessários à nossa sobrevivência com respeito e gratidão e evitando todas as mortes desnecessárias. O ponto de partida do Budismo é portanto o respeito incondicional à vida.

As Quatro Saídas de Sidarta

Sidarta Gautama era o príncipe herdeiro de Kapilavastu. Certo dia, saindo pelo portão leste de seu palácio encontrou um velho e interrogou-se sobre a razão pela qual as pessoas envelhecem. Saindo pelo portão sul encontrou um doente e perguntou-se sobre a razão da doença. Saindo pelo portão oeste deparou com um funeral e interrogou-se sobre o sentido da morte. Finalmente, saindo pelo portão norte, indagou-se como transcender o sofrimento do nascimento, da velhice, da doença e da morte, decidindo tornar-se um asceta. Depois de muita busca, despertou para o conhecimento dessas questões tornando-se o Buda, ou o Desperto. Essa é uma narrativa célebre.

Em suma, o objetivo do Budismo é transcender os sofrimentos e as inquietações produzidas pelo nascimento, pela velhice e pela morte. Despertando para a solução dessas questões, o Buda expôs em sua primeira pregação sob a forma de “Os Três Princípios Doutrinários Básicos” (A impermanência, a Insubstancialidade e o Nirvana).

A Impermanência das coisas

O primeiro destes três princípios é o da impermanência e transitoriedade de tudo. Não devemos olhar a morte como um tabu, devemos encará-la. Encarando as coisas percebemos que elas são impermanentes. 

Eu vivo numa cidade do interior da Província de Mie, no Japão, a 40 ou 50 minutos de carro de Nagoya, uma localidade que ainda conserva a paisagem rural de antigamente. Nasci na Província de Shiga, e a vida fez de mim um herdeiro de um templo nesse local. Ali ainda se conserva o costume de, por ocasião dos funerais, após o rito fúnebre os parentes acompanharem o féretro até o crematório. O próprio chefe da família do falecido acende o fogo da cremação.Vi isso e senti um choque. Uma pessoa que até a véspera falava animadamente conosco faleceu de um acidente de trânsito e converteu-se em fumaça branca, bem diante dos meus olhos? Não será de admirar se eu próprio for ai incinerado amanhã. Compreendi então, profundamente, o significado das palavras do Mestre Rennyo: “Nosso corpo, que pela manhã ostenta faces rosadas, ao entardecer pode estar transformado em uma ossada branca”. No Brasil, onde a cremação é pouco difundida, e predominam os enterros, percebemos que o sentimento é o mesmo.

Na nossa cabeça, mesmo sem pensar em vida eterna, encaramos nossa vida como devendo durar uns 80 anos. Mas a realidade não é essa. O Budismo nos diz que a morte pode não esperar pela nossa próxima expiração. O Buda nos ensinou que todas as coisas são impermanentes. Algo semelhante ocorre com a velhice. Julgamos que vamos ser sempre jovens, mas isso é ilusão. Vamos ficando com os cabelos brancos, a pele enrugada e vamos envelhecendo. A dor da velhice é essa diferença entre nosso pensamento e a realidade

Assim, o Buda nos diz: “Querer ser sempre jovem é uma ilusão, é preciso encarar a realidade. Desde o momento do nascimento estamos envelhecendo. O envelhecimento é uma coisa natural”.

Só encarando a velhice como natural é que podemos aceitá-la. O mesmo ocorre com a doença. Nós pensamos na saúde como natural e por isso sofremos quando estamos doentes no leito. Achamos que o Buda  quando assim fala está sendo parcial, mas, é uma ilusão considerar só a saúde como natural. Quando percebemos que na realidade a doença é natural, então somos capazes de encarar a doença.

A Insubstancialidade das Coisas

Este é o segundo princípio doutrinário: Não há nada que possa ser considerado como um eu. Nada pode ser considerado como nosso. Encaramos a vida como propriedade nossa, mas Buda nos ensina que ela é insubstancial. Quando temos 3 ou 4 anos de idade, nosso ego se fortalece e passamos a encarar a vida que está em nós como algo nosso. Na verdade não podemos morrer quando queremos e acabamos morrendo quando ainda queremos viver. Pode passar pela nossa mente a idéia do suicídio mas isto não depende só da nossa vontade. Existem causas e condições que se forem eliminadas, o suicídio não ocorre.

A vida, o nascer e o morrer não dependem, fundamentalmente de nossa vontade. A dor surge quando queremos dobrar à nossa vontade aquilo que não obedece à mesma. Quanto mais lutamos para submeter a morte à nossa vontade, mais aumenta nosso sofrimento.

Então, como podemos nos tranquilizar? Só nos tranquilizaremos quando estivermos prontos a aceitar qualquer tipo de morte. Se a pessoa faz distinção entre uma morte boa e uma morte má, mais aumentará seu sofrimento, já que isso não depende da sua vontade. Sofremos porque julgamos a vida uma propriedade nossa, mas o Buda ensinando o princípio da insubstancialidade mostra-nos que tudo é produto de causas e condições propiciatórias. A libertação deste apego definida como sendo a consciência de que a vida é algo que nos foi dado.

A Quietude do Nirvana

O terceiro princípio é o da quietude do Nirvana. Nós julgamos nossa vida algo que começa com o nascimento e termina com a morte, mas do ponto de vista budista a vida é encarada como algo maior, como um grande rio que transcende limites. É dentro desta vida imensurável que nos é proporcionada a existência presente. De acordo com as palavras do Mestre Shinran, nós viemos do “ Centro do Nirvana “ e a ele regressamos. Trata-se de uma vasta e universal corrente de vida. O fim de nossa vida é assim comparável à queda de uma folha da árvore da vida.

Os Dois Tipos de Vida e Morte

Quanto à concepção de vida, existem no Budismo duas maneiras de se encarar a vida e a morte: “Vida e Morte Cindidos” e “Vida e Morte como Inefável Transformação”. 

Por “Vida e Morte Cindidos” entende-se a visão comum que faz uma cisão entre vida e morte, considerando a vida como o tempo decorrido entre o nascimento e a morte.

A “Vida e Morte como Inefável Transformação” é a vida universal que nos é dada, ou, em outras palavras, a Vida Imensurável ou a Não-Vida-Não-Morte. Consideramos a vida como sendo breve ou longa. Queremos a vida o mais longa possível, almejando até uma vida imortal. O Budismo, porém, considera que a vida do indivíduo transcende brevidade ou longevidade e nos mostra que ela faz parte de uma Vida Imensurável. Temos aí um autêntico despertar para uma dimensão de universalidade. Os grandes mestres budistas expressam isso de diferentes formas. Por exemplo, ainda que vivamos cem anos, estaremos eternamente insatisfeitos se permanecermos apegados à brevidade-longevidade.

A Satisfação com a Vida

Como podemos transcender a velhice, a doença e a morte que atingem a todos? Temos a visão da “Vida e Morte Cindidos”, ou seja , a preocupação com a maior ou menor duração da vida. Quando eu era criança havia um filme denominado “Fitando o amor e a morte”. Creio que vocês se lembram. Trata-se da filmagem do “Diário de uma vida jovem” de Michiko Oshima. Ela foi atacada por um tumor maligno na face e faleceu aos 21 anos. Em sua obra ela dizia:“A vida humana não é preciosa por sua duração, mas sim por sua profundidade”. 

Já o filósofo Manshi Kiyozawa, que viveu na Era Meiji (Séc. XIX a XX), e faleceu aos 41 anos, diz em sua obra “Minha Fé”: “Eu entreguei a grande questão da vida e da morte nas mãos do Buda e não sinto a menor apreensão ou insatisfação”. Não é a longa duração que faz com que uma vida seja satisfatória. Podemos considerar satisfatória a plena expansão da vida conforme nossos desejos, mas, sendo nossos desejos inesgotáveis, jamais alcançaremos a satisfação.

Outrora considerava-se a duração média da vida humana como sendo de cerca de 50 anos. Hoje falamos em 80 anos. Houve um acréscimo de 60%. Mas, será que com isso a inquietação diminuiu 60% e a satisfação cresceu em 60%, como seria de se esperar racionalmente? Ainda que, graças ao transplante de órgãos, uma vida de cem anos seja prolongada para 150 anos, a questão será idêntica. As pessoas se lamentarão por não conseguirem viver duzentos anos. Se não nos deparamos com a qualidade, ou seja, com a “profundidade” mencionada por Michiko Oshima, jamais alcançaremos a satisfação. O critério de duração não passa daquela “Falsidade e Mentira” mencionadas pelo Budismo no Tratado de Lamentações das Heresias. Enquanto formos prisioneiros desse critério, jamais teremos satisfação. Quando transcendermos esse critério, ingressaremos no universo em que tudo está entregue à espontaneidade. Só então alcançaremos a verdadeira tranquilidade.

Por Shunko Tashiro