No Budismo Shin, nós nos baseamos no Voto Original do Buda Amida, o qual jurou salvar (ou libertar) todos os seres viventes do Samsara através do Coração Confiante (Shinjin), ou comumente traduzido por fé, proporcionando o Ir-nascer em sua Terra Pura da Suprema Alegria e de lá iniciar caminho de Bodhisattva rumo ao Supremo Nirvana. Posto isso, os clérigos não recebem preceitos como em outras tradições budistas pela interpretação da ação salvífica do Voto de Amida, mas proferem os juramentos prostrando-se três vezes, uma para cada joia do Budismo.
A cerimônia de ordenação clerical – Tokudōshiki
A cerimônia de ordenação clerical ocorre no Santuário Central (Honzan) em Quioto com a entrada dos postulantes paramentados de branco com as vestes jiban e haku’ē, roupas que simbolizam uma mortalha, ou o morrer à vida mundana, e adentrar à senda do Dharma. Na nave central, toda escura e apenas iluminada por uma grande vela, sentam-se em seiza (posição sobre as pernas) alinhados diante da imagem do Mestre Shinran para os primeiros ritos. Em seguida, todos saem da nave e recebem do lado de fora dos seus padrinhos o paramento preto (koku’ê ou jikitotsu) e o manto preto (sumigesa), vestem-se e retornam para a nave a realizar seus juramentos.
Konjin jin mirai sai. Kie Bu, Kie Ho, Kie So
Traduzindo: De agora até um futuro imensurável vou dedicar minha vida ao Buda, ao Dharma e ao Sangha.
Num dado momento, todas as luzes da nave são acesas e as portas frontais e laterais são abertas, permitindo a entrada da luz exterior, fazendo uma alusão à Luz de Amida, assim como dos seus convidados que antes esperavam do lado de fora. Saímos da escuridão do Samsara e adentramos ao mundo da Luz. Após esta cerimônia, todos vão prestar homenagem diante do mausoléu do Mestre Shinran no Shinshū Hombyo, em Higashiyama, região leste de Quioto. O encerramento se dá com a entrega do certificado monástico (sosseki), seguido de uma confraternização.
As ordenações clericais ocorrem todo dia 7 de cada mês, remetendo ao dia que o Mestre Shinran foi ordenado no Templo Shoren-in. Os homens raspam a cabeça apenas na ordenação, e é opcional mantê-los durante sua vida clerical. Já as mulheres prendem os cabelos com um adorno branco, mas depois usam como preferirem. O significado de raspar a cabeça é o mesmo das demais escolas, relembrando o ato de renúncia do Buda Shakyamuni, porém não raspá-los (e isso é uma interpretação minha, por isso mantenho minhas madeixas) nos faz lembrar que estamos no Samsara. Queiramos ou não, estamos imersos no mundo das paixões, sendo raro extirpá-las, nos restando apenas confiar no Voto Original e recitar o Nembutsu. As paixões são como gramas ou cabelos, ainda que se cortem, eles surgem novamente.
A cerimônia dos leigos – Kikyōshiki
A cerimonia de tomada de refúgios para leigos se chama Kikyōshiki e ocorrem em duas datas: na Festa das Flores (Hanamatsuri ) em homenagem ao nascimento do Buda Shakyamuni) em abril, e no Rito de Ação de Graças em Memória ao Mestre Shinran (Ho’On-Ko) em novembro. Na cerimonia de Ho’On-Ko, o Kikyōshiki é realizado pelo nosso Mestre das Missões vindo do Japão anualmente, ou em sua ausência, pelo Sacerdote Primaz, responsável pela Ordem Shin Ōtani na América do Sul.
A cerimonia é realizada em um rito litúrgico seguido de juramentos à Tríplice Joia proferidos por um dos leigos. Em seguida, o Mestre das Missões, ou o Sacerdote Primaz, faz uma tonsura simbólica (kamisori) em três movimentos na cabeça do leigo, entrega o nome de Dharma (homyo), o rosário budista (nenju) e o livro de ritualística (gongyoshu).
Para tornar-se leigo, o postulante precisa ter um conhecimento do Budismo histórico e em específico da Escola Jōdo Shinshū, conhecer suas liturgias e ensinamentos, bem como atuar nas atividades no sentido de vínculo e trabalho da comunidade budista. Tomar refúgio é confirmar seu compromisso com o Buda, o Dharma e o Sangha, é ter vínculo e trabalho, estudo e prática, conviver em comunidade. Tomar refúgio não nos isenta de termos sofrimentos, mas através da tomada de consciência da correta compreensão faz olhar o Samsara de outra forma.
Diferenças estéticas

Os altares são ricamente ornamentados segundo o Sutra de Amida remetendo o indivíduo à expressão da Terra Pura por meio de painéis coloridos de flores de lótus, seres musicais alados, pássaros exóticos, chuvas de pétalas de flores, um conjunto de utensílios (butsugu) como incensários, gongos, vasos de flores, castiçal de velas, e ao centro a imagem do Buda Amida em sua varanda do palácio em pregação aos seres.
A liturgia é a prática central como expressão de gratidão e louvor ao Buda Amida pela recitação dos Sutras e o cântico do Shoshingê (Poema da Verdadeira Fé), composto pelo Mestre Shinran. Durante os ritos, os clérigos sentados no altar simbolizam tomar o assento do Bodhisattva diante de Amida cabendo “emprestar” a voz ao Buda de onde sua varanda profere o Dharma.
As cores dos paramentos monásticos representam as flores da Terra Pura baseado no Sutra de Amida, e ao mesmo tempo a simbologia dos graus de acordo com o seu tempo de estudo e conhecimento.
O paramento (jikitotsu ou koku’ē) preto é comum a todos, desde o Grão-mestre até o monge iniciante, simbolizando as vestes do Mestre Shinran, fundador do Budismo Shin. Entretanto, a cor vermelha é usada unicamente pelo Grão-mestre que possui linhagem consanguínea ao Mestre Shinran. O vermelho é a cor do Buda Amida e da Terra Pura, sendo ele um dos cinco Budas visto comumente nos mandalas tibetanos, podemos vê-lo representado nessa cor.

Os templos das escolas Terra Pura possuem o ícone sagrado do Buda Amida entronizado no altar, e muitos deles na lateral possuem a imagem do Mestre Shinran, e eventualmente do Mestre Rennyo (reformador da escola Jōdo Shinshū), do príncipe Shotoku, dos Sete Mestres (Shichi koso) da Terra Pura. Uma característica dos templos Shin é que os leigos ocupam o interior da nave com os clérigos participando das cerimônias.
Outros aspectos
Na Ordem Ōtani (Higashi Honganji) há essencialmente duas formas de ordenação: a primeira modalidade pelo seminário (senshugakkuin) realizado em Quioto durante um ano e meio e permite ao postulante ser um Mestre do Dharma e se tornar missionário (kaikyoshi), coordenar templos e atuar integralmente na Ordem como funcionário. Já na segunda forma, torna-se clérigo adjunto com limitações de atuação, não reside em templos nem se dedica integralmente como missionário, podendo seguir sua vida e profissão laicos, mas realiza ritos memoriais (hoji) e participa de grandes cerimônias como Ohigan e Obon. Tanto numa formação quanto em outra, as despesas com paramentos, formação e viagens fica por conta do postulante.
Os graus de ordenação variam de acordo com o tempo, a experiência e cursos de aperfeiçoamento, iniciando como Hirazá, e depois galgando os graus de Kyoshi, Nyu-i, Man-i e Hôshi.
(Artigo pessoal em resposta a um trabalho de estudo de um monge da Sotozen)

Olá! Excelente!Obrigado! Há em São Paulo templo da vossa escola Budista? Abelardo de Almeida
Olá Encontrei o endereço! Obrigado. Estou frequentando há 1 ano a Jodo Shinshu Shinrankai do Brasil, na rua Mauro. Mas este templo da Av. Do Cursino fica mais próximo de nossa casa que fica no início da via Anchieta no Moinho Velho. Seria possível, quando viável, conhecer de perto ? Tenho acompanhado as publicações excelentes. Abraços fraternais a todos! Namu Amida Butsu . Abelardo de Almeida (ABE)
Olá Abelardo, o templo Nambei Honganji da av. do Cursino é o templo oficial da escola Jodoshinshu, Ordem Shin Otani, fundada há 800 anos. Quando a pandemia permitir, venha nos visitar aos domingo às 10h30, quando realizamos o Dharma Dominical. Todos os domingos estamos transmitindo via página do templo no facebook o rito dominical e depois a live fica no nosso canal no youtube.
As restrições de quem faz a formação inicial no Brasil são fáceis de ser superadas ou isso vai limitar a carreira do monge/monja? Não entendo essa distinção é até preconceituoso isso aos meus olhos.
Existe um erro no texto. A “mortalha” de ordenação não é o jiban nem mesmo o haku-e. Jiban é o kimono (gi) branco que voce usa em cima da camiseta e o haku-e (haku = espera e e=roupa) é o manto preto que voce usa em cima de qualquer outra roupa junto com o wagesa. Assim, vc nao poderia ter usado isso na ordenaçao pq vc ainda nao era ministro.
O texto está correto. Haku’ē ou hakufuku (haku – branco, ē/fuku-roupa) é a vestimenta branca longa semelhante a um kimono. Jiban ou juban significa camisa curta, usa-se por debaixo do haku’ē. Kan’ē é o nome do paramento de cor preta e de espera usado com wagesa (estola), pode ser usado sobre haku’ē e jiban ou sobre uma roupa ocidental para eventos sociais e não litúrgicos. Tanto haku’ē quanto kan’ē não são mantos, são vestimentas tradicionais adaptadas ao vestuário budista, já os mantos são o sumigesa (cor preta apenas) e gojo (colorido dependendo do grau), representando o manto de Buda.
A ordenação foi feita dentro dos protocolos rígidos da Ordem Õtani e realizada na Matriz em Quioto, sob orientação do meu mentor na época, rev. Wagner Haku-shin (in memorian).
O Rev Jean está basicamente correto quanto a esta questão. O haku’e é semelhante a um longo quimono branco usado sobre o juban e o kan’e é um paramento preto usado sobre o haku’ê ou sobre a roupa ocidental, junto com o wa-gesa
Chiko Tsukamoto Superintendente Missião Sul americana do Budismo Shin Ordem Otani
この意見については、ジアンさんが基本的に正しいです。白衣は襦袢の上に着る白く長い着物に似たものであり、間衣は襦袢及び白衣、または洋服の上に、輪袈裟と共に着用する黒い衣のことです。
南米開教監督 塚本智光