Esta é uma pergunta bem recorrente de quem se aproxima do Budismo, mas desconhece a complexidade de sua estrutura e doutrina. Espero que esse post possa ajudar!
Boa parte dos internautas me questionam sobre o fato de não estarem próximos dos templos/ centros de prática em suas cidades. Se este for seu caso, não desanime, a internet é uma grande aliada. Sua prática pode começar sozinha, mas de repente alguns amigos se interessam e vocês montam um grupo de estudos, deste grupo surge um centro de prática e dali quem sabe um templo. Hoje há muitas escolas que atuam remotamente e é muito importante ter um mestre/monge/lama ou mesmo veterano habilitado para orientar a correta prática e ensino. O Buda fala para você mesmo ser seu mestre enquanto diligência e observância das práticas, mas ele nunca falou para você seguir o Caminho sozinho, ao contrário, o valor da comunidade budista (Sangha) é comparada a uma joia ou tesouro (por isso tomamos refúgio nas Três Joias do Budismo – o Buda, o Dharma e o Sangha). Não há Budismo sem pessoas praticando o Caminho juntas.
Existem BudismoS, no plural, porém todos são expressões da mesma fonte com características e peculiaridades, influenciados pela cultura do país que se estabeleceu. Por exemplo, nem todas praticam escolas praticam meditação, a maioria do budistas não são vegetarianos, nem todos monges são celibatários ou seguem as mesmas regras monásticas, há fortes manifestações de confiança (fé) e uma rica liturgia, entre outras curiosidades.
Não há uma regra de qual escola você deve seguir. Na verdade é o seu interior que se identificará com uma delas. Eu costumo dizer que é o Dharma que nos faz escolher de acordo com nossas condições cármicas. Todas escolas derivam do mesmo mestre – Buda Shakyamuni. E não estranhe, é normal a gente perambular de escola em escola, até aportar em uma. Posto isso, ao você se identificar com uma linhagem, se estabeleça à ela, ainda que à distância. A partir daí, os mestres/ lamas/monges vão te orientar no que deve ser estudado e praticado.
No Brasil, o Budismo se desenvolveu inicialmente com a comunidade japonesa ao chegar em 1908, aflorando pelos próprios fiéis que construíram os templos para sua comunidade. Nessa sentido, como não encontramos o caráter proselitista ou missionário de difusão, nem a pretensão de conversões em massa. Ao longo das décadas muita coisa mudou, as escolas foram se abriram aos brasileiros, os livros traduzidos, foram ordenados grandes mestres brasileiros e novos formatos de comunidades estão se desenvolvendo, sobretudo por conta da internet onde encontramos a doutrina mas sem um templo próximo para praticar.
E o que eu faço primeiro?
Sugiro você dividir seus estudos em duas partes: primeiro conhecendo o Budismo em geral, sua história, expansão, desenvolvimento, principais escolas e suas práticas. O Budismo é uma religião estratificada por escolas através de três grandes tradições – Vajra (tibetano), Theravada (sudeste asiático) e Mahayana (China, Japão, Coreia e Vietnã). E é preciso explorar um pouco essa geografia para entender o desenvolvimento doutrinário, o porquê e como isso aconteceu. Fiz um apanhado dos livros que li, eles podem te ajudar nos estudos.
A seguir vem o estudo da escola que você se identificar mais. Todas elas propõem maneira diversas rumo ao mesmo objetivo -o pleno despertar rumo ao Nirvana. Criei um pequeno diretório de escolas e centros de prática oficiais e tradicionais representados no Brasil. O Buda Shakyamuni falava de forma adequada às diferentes pessoas e condições. Importante notar que as escolas não concorrem entre si, nem uma é melhor que a outra, certa ou errada, mas somente expressam em roupagens diferentes a mesma mensagem do Tathagata. É como ir a um determinado lugar, você pode ir de carro, bicicleta, ônibus, são veículos diferentes adequados ao mesmo destino.
E a gente se converte no Budismo?
De maneira geral sim, o termo correto é Tomada de Refúgio, e acontece em uma cerimônia confirmando nossos votos, comprometimentos e intenções de ter o Buda como mestre, o Dharma como Caminho e o Sangha como local de prática. O Budismo tem o senso de coletividade e fraternidade muito acentuado, todos são irmãos do Dharma. Ao mesmo tempo é uma religião hierarquizada de respeito aos mestres e os praticantes veteranos. Cada escola tem sua cerimônia específica e parâmetros de integração.
Em resumo, há duas palavras que eu defino como essenciais para quem pratica o caminho budista: trabalho e vínculo. Engana-se quem pensa vai a um templo apenas meditar sobre uma almofada e ficar tudo bem, ou “ficar zen”. Esta é uma leitura desconhecida sobre o Budismo. O vínculo representa nossa interdependência e interconectividade no Sangha, a Comunidade, é o nosso compromisso de retribuição e gratidão àqueles que propagaram o Dharma chegar até nós, passando-nos o bastão desta tarefa. E o trabalho é o exercício maior, a humildade da ausência de um “eu” em detrimento do outro, é a expressão da compaixão manifestada nas ações da comunidade.
Tornar-se budista é apenas o início de uma jornada, como subir em um navio com muito trabalho a bordo, e não pode ser visto como um passaporte para o Nirvana. Ambas palavras significam literalmente por a mão na massa. Vínculo está ligado ao Dāna Paramita, a doação, generosidade, oferta e o trabalho ao Virya Paramita, o esforço, energia, diligência. Ambos pertencem aos Seis Paramitas.
Creio que é isso, qualquer dúvida sinta-se à vontade em perguntar!
Namu Amida Butsu /\

É possível ser budista e paralelamente seguir outro caminho religioso (como Umbanda/Candomblé)?
Olá Marcos, como vai? Eu diria que sim, no Japão é comum as pessoas serem budistas e xintoístas ao mesmo tempo. Mas tem suas estranhezas. Brincamos que os japoneses são práticos, o Xintoísmo resolve os problemas do cotidiano com seus deuses e o Budismo dá uma solução para o pós morte. Agora, penso que seja importante entender qual o propósito de caminhos que, em certo ponto, tomam rumos diferentes. O Budismo não tem mandamentos, e sim alertas, apontamentos sobre a realidade e tudo que gira em torno dela, então ele não proíbe nada. Qual o objetivo do Budismo, qual da Umbanda/Candomblé? Se eles trouxerem um sentido para você, como fazem os japoneses, então penso que está tudo bem. Espero ter ajudado.