
No dia 19 de março de 2026, tive a honra de ser o orador do lançamento deste importante Guia. Seu propósito reúne diversas tradições no intuito de promover um diálogo maior entre a sociedade e tradições do oriente na promoção do turismo religioso no Estado de SP. Registro aqui a fala apresentada na cerimonia.
“É uma honra e uma grande alegria participar do lançamento deste guia tão especial, não apenas pelo cuidado estético e à riqueza das informações que certamente contém, mas ao seu significado profundo como um marco para a cidade de São Paulo e todo o Brasil. Expresso em nome de todos a mais sincera gratidão aos responsáveis por esta iniciativa, aos idealizadores, aos colaboradores e a todos que dedicaram tempo, esforço e sensibilidade para que este projeto se tornasse realidade. Aqui expresso minha fala em nome do nosso sacerdote primaz rev tsukamoto.
Este guia cumpre um papel fundamental: ele registra, de maneira cuidadosa e respeitosa, a presença histórica das religiões orientais em nosso país, desde os primeiros imigrantes japoneses, coreanos, chineses, sírios, libaneses entre tantos que aqui chegaram, trazendo consigo não apenas suas malas, mas também suas crenças. E o guia não se limita ao passado. Ele contempla o presente, ao incluir as novas vertentes religiosas estabelecidas entre nós. Todas são expressões de fé que dialogam com o mundo contemporâneo, buscam atender às necessidades espirituais de um tempo marcado por transformações rápidas e mesmo incertas.
E é justamente aí que reside a beleza deste trabalho: ele nos mostra que, ainda que tenhamos visões de mundo diferentes — umas antigas, outras recentes; umas com deus único, outras com milhares de deuses, outras mesmo sem deuses, todas compartilham algo fundamental – o sentido para vida. E buscam oferecer respostas às perguntas que acompanham a historia humana sobre como transcender os sofrimentos e encontrar a paz interior em meio ao caos do mundo exterior. As religiões, em suas mais diversas manifestações, são tentativas de responder a essas questões. Elas nos oferecem significados para nossa jornada e, sobretudo, nos ajudam a compreender o mistério que envolve a vida e a morte.
Embora concebido com uma proposta turística, e eu particularmente chamo SP de Vale dos Templos Orientais, de fato, ele será um excelente roteiro para quem deseja conhecer os espaços sagrados que fazem parte da paisagem paulistana. Ao percorrer esses lugares, muitas pessoas poderão, quem sabe, encontrar também um caminho de vida.
Além disso, o guia possui um caráter pedagógico inegável. Ele será uma ferramenta valiosa para educadores e estudantes. Permitirá que crianças e jovens conheçam visões de mundo e culturas diferentes em relação as suas próprias historias e crenças. E esse conhecimento é fundamental no intuito de nos respeitarmos mutuamente e a valorizar a diversidade.
E é na diversidade que se constrói a sociedade. Não por uma sociedade imposta de apenas uma forma, que apaga as diferenças. Mas que se fortalece justamente por meio delas. Uma sociedade baseada no respeito mútuo, na dignidade humana e, sobretudo, na construção da paz. Acredito que a paz verdadeira não seja a ausência de conflitos, mas a capacidade de conviver com as diferenças sem que elas se tornem motivos para violência e desrespeitos.
Em meio a propósitos de vida distintos, certamente há algo que nos une: todos nós vivemos imersos nesta Grande Vida Imensurável, que vive cada um de nós, aqui e agora. Essa força, esse mistério, essa energia vital cósmica ou transcendental — chamemos como quisermos — é o que nos revela sermos interdependentes e interconectados a todos, a tudo e ao meio ambiente.
São Paulo é, sem dúvida, um símbolo de diversidade cultural, social, sexual, étnica e também religiosa. Mas sabemos que essa convivência nem sempre é pacífica. Nós, praticantes de religiões orientais, assim como nossos irmãos de matriz africana, sofremos com a discriminação, assédios religiosos e discursos de ódio.
Há quem insista em impor sua crença como fosse a única verdade absoluta, menosprezando tradições milenares, que simplesmente fogem daquilo que arbitrariamente convencionaram chamar de “normal” ou “correto”. Essa postura fere profundamente a visão plural da vida. Por isso, precisamos exercitar cotidianamente o combate à intolerância religiosa.
E para isso é preciso ensinar, desde cedo, que a crença do outro merece o mesmo respeito que a nossa. E também é preciso acolher, dialogar e construir pontes. O Brasil possui legislação garantida pela Constituição que criminaliza a intolerância religiosa, e é nosso dever cobrar que essas leis sejam cumpridas. Não podemos tolerar o intolerante.
Neste sentido, o guia representa também um passo importante nessa direção. Ele não é apenas um mapa turístico de templos religiosos orientais, mas sim um convite ao diálogo, à descoberta e ao encontro. Que ele possa circular nas escolas, nos centros culturais, nos lares e mesmo em outros templos religiosos. Que possa ser acessado por pessoas de todas as idades, crenças e as origens, e que, ao folhear suas páginas, cada leitor possa sentir aquilo que sentimos hoje: a certeza de que a diversidade religiosa é um dos maiores tesouros da humanidade, e que garanti-la é proteger a própria essência do que significa ser humano.
E aqui gostaria de quebrar o protocolo e lembrar do nosso saudoso e querido prof. doutor Rev. Ricardo Mario Gonçalves, a quem considero um dos precursores, para não dizer o principal precursor, das religiões orientais em nosso país junto para os brasileiros, a quem buscou desde os anos 60 a abertura da religião de comunidade nipônica e sobretudo ao dialogo interreligioso para construção de uma sociedade de paz.
Muito obrigado”.
Baixe gratis aqui o Guia.
