O título do post é de um filme e traduz muito bem a gratidão daqueles que aprendem e ensinam com coração alegre e altruísta.

Este post é dedicado ao meu querido amigo e mentor, um dos poucos Mestres de Dharma que o Brasil já teve e tristemente faleceu dia 27/03/2022. Esta conversa ocorreu em trocas de email, pois nos idos de 2000 não havia whatsapp, facebook, era somente o velho Orkut e as listas de Budismo por email. Compartilho, de forma inédita, preciosas respostas de uma conversa pessoal e desejo que elas contribuam com a jornada de cada um de vocês!

Olá Jean,

[[[Lembrei de uma frase da Coen que diz todos os seres são budas disfarçados, são seres luminosos com a casca humana, mas como é difícil de ver isso, não??]]]

Existe uma historinha sobre um dos discípulos do Buda Shakyamuni que fazia gassô diante de cada pessoa que encontrava e dizia que a reverenciava pois ela iria se tornar um Buda. As pessoas debochavam dele e por vezes até se irritavam e o agrediam, mas ele mesmo assim mantinha sua atitude de reverenciar até mesmo essas pessoas. Difícil??? Sim e muito, principalmente com aqueles que realmente nos ferem, mas acho que podemos fazer disso um treinamento interno.

[[[Como voce lida com a ira de vez em quando? fico bravo na hora, mas depois fico sem graça e sem jeito, com remorso. ]]]

No meu caso, acho que meus longos anos de treinamento em artes marciais ajudaram muito a controlar a ira e a raiva, mas não as deixo de sentir, apenas tento voltar ao meu centro o mais rapidamente possível e ver que a raiva ou a ira se originaram no meu ego por causa da minha ignorância…. e aí…. só me resta mesmo recitar o Nembutsu.

[[[Eu sempre sento na minha varanda para ler um pouco e o que eu sinto na hora é a vontade de querer ler todos ao mesmo tempo e assimilar todos!!]]]

Pois, é….. enquanto seres humanos limitados, temos esses limites e impedimentos, mas devemos nos lembrar que na tradição da Terra Pura, o Voto de Amida é que vai nos beneficiar com o Ir-nascer para que possamos nos transformar em Bodhisattvas e Buddhas. E os quatro voto básicos do Bodhisattva são:

– Inumeráveis são os seres viventes, mas eu juro salvá-los.

– Incontáveis são as paixões mundanas, mas eu juro extirpá-las.

– Inesgotáveis são os Dharmas, mas eu juro estudá-los.

– Infinita é a Senda Búdica, mas eu juro trilhá-la.

Isso não é algo que possamos fazer pelo nosso poder pessoal (jiriki) mas é possível através do Voto Original do Buda Amida.

[[[mas como é difícil no mundo a fora colocar essas coisas em prática, o budismo enfatiza bastante o coração compassivo, a compaixão, mas essa nossa mente dualística cria o preconceito em nós…nossa esse assunto vai tarde a dentro…!! ]]]

Aqui também devemos nos lembrar do Tannishô, onde Shinran nos diz que existem dois tipos de compaixão, a pequena compaixão que é desenvolvida em nosso interior, querendo ajudar os seres viventes, mas somente a Grande Compaixão Búdica é capaz de beneficiar a todos indistintamente. Nesse ponto voltamos à prática do Nembutsu, para que possamos nos tornar Budas e assim poder beneficiar a todos.

[[[Me diga, eu li um texto do Mauricio que ele diz que Amida não existe.]]]

Esse texto é muito bom e muito direto, mas existem estilos pessoais para se expressar. Se eu tivesse escrito, talvez não usa-se uma expressão como “não existe”, uma vez que existir ou não é algo muito subjetivo. Eu entendo que o Maurício escreveu esse texto para quebrar a idéia de que Amida (bem como qualquer outro Buda ideal) seja uma personalidades individual, assim como um deus, agindo desde um mundo distante de nós. Esse texto surgiu exatamente para responder à acusação de alguns de que o conceito de Amida é na verdade a de um “amideus”, ou seja, de a tradição da Terra Pura não seria Budismo, mas sim um culto a uma divindade solar. É verdade que a “figura” de Amida tenha talvez inspiração nos cultos solares da antiga Pérsia e noroeste da Ásia, mas o ensinamento sobre Amida foi transmitido pelo próprio Buda Shakyamuni. O Maurício faz sempre a sugestão de que se a pessoa tiver dúvidas ao ler texto, que leia novamente trocando a expressão Buda Amida por “Dharma”. Aí fica claro o que ele está querendo dizer. Quando fazemos isso, podemos compreender que Amida é a expressão última do Dharma. Aqui vale lembrar sobre o ensinamento dos 3 Corpos de Buda:

1. Dharmakaya (Hôshin): O Corpo de Dharma, que não tem forma, nem cor, nem cheiro, etc. Esse é o Dharma Eterno que é a essência de tudo que existe e que só pode ser alcançado em sua totalidade com a realização do Nirvana.

2. Sambhogakaya (Hosshin): O Corpo Glorioso (que alguns chamam de Corpo de Recompensa), que a forma gloriosa do Buda, assim como podemos ver em gravuras, estátuas e pinturas. É o Dharma que se manifesta em uma forma “ideal” para inspirar o seres ao Caminho da Iluminação.

3. Nirmanakaya (Ôjin): que é o Corpo de manifestação (em geral física), ou seja, podemos tomar o Buda Shakyamuni como um Ôjinbutsu, um Buda de carne e osso, como nós, que nasce, vive e morre.

Mas o próprio Buda disse que quem via apenas a sua manifestação física ainda não conhecia o verdadeiro Buda. Também no Sutra do Nirvana, ele fala que enquanto seus seguidores praticassem os ensinamentos deixados por ele, o seu “Corpo de Dharma” continuaria eternamente presente.

Então veja. O Buda Amida possivelmente não tenha uma existência física, pois o Sutra diz que o rei que abandona o trono por ter se encontrado com o Buda Lokesvara-Raja (Seijizai-ô Butsu) e que se tornou um asceta de nome Dharmakara (O Repositório do Dharma = Hôzô Bosatsu) e que mais tarde teria se tornado o Buda Amitabha, também conhecido como Amitayus, teria vivido há inscontáveis Kalpas atrás. Bem……. depois de se tornar um Bodhisattva, Dharmakara medita durante 5 Kalpas e ainda no Grande Sutra da Vida Imensurável diz que já se passaram 10 Kalpas desde que Amida se tornou um Buda. Cada Kalpa é um período incontavelmente longo que pode ser imaginado como o tempo que o Universo demora para nascer, se expandir, se contrair e voltar a desaparecer, então não me parece um relato histórico que poderia ter ocorrido a apenas alguns milhares de anos atrás, quando talvez o ser humano não passasse de um animal das cavernas. Esse tipo de relato, fora do tempo e do espaço é muito presente em todas as tradições, até mesmo nas historinhas infantis, quando começamos dizendo…… “há muito, muito tempo atrás…..” Isso torna a história uma Hierografia (uma descrição das coisas sagradas) totalmente fora do tempo e do espaço por nós conhecidos, e ao mesmo tempo, sempre presente. O Buda Shakyamuni usava muito essas expressões.

No Grande Sutra (Daí-Kyô) ele diz que na direção Oeste, daqui passando por milhares e milhares de mundos búdicos (na geografia sagrada do Budismo, cada universo possui o seu Buda, e o nosso é o mundo do Buda Shakyamuni) há um mundo onde habita um Buda chamado Amida. Então a Terra Pura estaria impensavelmente longe de nós.

Mas no Sutra da Contemplação da Vida Imensurável (Kan-Gyô) ele diz para a rainha Vaidehi que a Terra Pura está logo aí, ao nosso alcance. E ainda no Amida-Kyô, o Shakyamuni diz que “nesse exato momento o Buda Amida está pregando o Dharma e está sendo louvado por todos os Budas de todas as direções, ou seja, a Terra Pura se faz presente em nós, transcendendo tempo e espaço….. ela é sempre atual…. o Buda está sempre presente e pregando o seu Dharma para nós. Alguns mestres tratam esse “mito” do Buda Amida pelo lado filosófico, como um conto, assim como a Caverna, de Platão. Outros, tratam pelo lado psicológico, como sendo o Buda Amida um “Arquétipo” do Iluminado. Outros ainda, como é comum no Budismo Chinês e na Escola Jôdo dos seguidores de Hônen (digo seguidores pois não me parece que foi assim que Hônen ensinou, pelo menos não é como Shinran disse ter recebido os ensinamentos de seu mestre), como um tipo de paraíso objetivo e com existência real. Eu, que tenho uma tendência mais “dolcetista” gosto de pensar no Jôdo e em Amida como realidades atemporais, mas objetivas. Ou seja, para mim, o Dharma se manifesta na forma de Amida e cria uma Terra Pura que possibilita aos seres atingir a Iluminação através do Outro Poder que é o Poder do Voto Original do Buda Amida. Por ser atemporal, não se refere a um outro mundo após a vida, mas sim, um outro plano de existência, fora do tempo e do espaço. Uma espécie de Universo paralelo no qual interagimos e ele interage conosco através de um “portal místico” que é a Liturgia. É a prática do Nembutsu que nos possibilita ir-nascer na Terra Pura (Ôsô) e imediatamente voltarmos para atuar neste mundo (Gensô) são as chamadas Graças do Ir e do Vir. O Budismo da Terra Pura é um ensinamento de mão dupla!

Mas veja bem…. estou falando isso com você de um modo bem pessoal e didático. Provavelmente se eu disser isso (universos paralelos, portais e etc.) numa lista de professores de Dharma, vão me chamar de maluco. Mas é como sinto a minha fé. Meu falecido mestre, Otani-sensei, sempre me dizia que uma criança quando é muito pequenina e começa a chorar querendo a mãe, esta aparece e a criança para de chorar. Quando ela cresce um pouco mais, pode estar brincando no quintal e chamar a mãe, que basta a mãe responder lá de dentro da casa, que a criança fica tranquila pois sabe que sua mãe está ali. Quando nos tornamos mais independentes, basta lembrar de nossa mãe, que saberemos que ela está em algum lugar, mesmo longe de nós, mesmo em outro país, ou outra existência, mas que no fundo ela está dentro de nossa lembrança e nosso coração. Ele dizia que assim era o Buda Amida.

Há aqueles que precisam talvez de uma manifestação, outros basta chamar e ouvir o Dharma e outros nem precisam mais de liturgia ….. apenas vivem a presença de Amida. Eu atualmente ainda me encontro entre o segundo e terceiro estágio. Sinto a presença de Amida em mim e nas coisas e pessoas, mas ainda tenho a necessidade de me expressar objetivamente, oferecendo flores, incenso, e recitando o Nembutsu diante do altar.

[[[ Essa metáfora do rei que fez seus votos e tornou-se Amida, não seria também uma referencia ao próprio Xaquiamuni que largou seu reino?]]]

Esta seria uma visão psicológica, onde Amida seria um tipo de alter-ego de Shakyamuni, mas não me parece ser assim, porque ele enfatiza os 48 Votos de Amida. Já no seu caso, ele apenas se diz presente através dos ensinamentos.

[[[ em outras eras realmente existiu um rei que tornou-se buda?]]]

Pode ter existido, mas isso seria há kalpas e kalpas atrás….. em outros universos muito anteriores ao nosso…… mas ….. por que não? O importante é vivermos o mito aqui e agora.

[[[ me pos em cheque esse comentário e ele comenta que não adianta orar a Amida, que não vai acontecer nada,]]]

Sim… ele tem razão. Não adianta pedir para curar doenças, para conseguir um emprego novo e nem nada. Uma vez na cerimônia de Hanamatsuri lá da Liberdade, onde fazemos em conjunto com as outras escolas, uma senhora me perguntou se poderia fazer um pedido ao Buda na hora de banhar a estátua do Buda criança com chá, e eu disse que podia sim, mas que o Buda provavelmente não iria atendê-la. Ela tomou um susto e perguntou por que. Eu expliquei a ela que em primeiro lugar os pedidos são desejos de nosso ego, e o que o Buda prega é um caminho para transcendermos o ego e não de alimentá-lo; em segundo lugar, o Buda em sua infinita sabedoria e compaixão se pudesse realizar todos os desejos das pessoas e acabar com todos os sofrimentos, ele faria sem que a pessoa tivesse que pedir. Entende?

[[[ mas se exteriorizarmos nosso coração a alguém de fora, não seria essa idéia de Amida?]]]

“Exteriorizar o nosso coração”….. hum….. mas que coração? O nosso coração é limitado e cheio de paixões mundanas. Até mesmo o desejo de beneficiar as pessoas ainda é desejo. O supremo Voto de ajudar a todos, tem que partir da mente Iluminada e isso só é possível para um Buda……. Agora…. quando nos tornamos Unos com o Buda através do Nembutsu, aí sim a nossa “aspiração”, o nosso “voto” será uma manifestação do Voto do Buda, que é o de que a pessoa também desperte de seu sono de Maya e veja a realidade através da Luz da Sabedoria, abrindo assim os olhos do coração. Isto é, o “voto” de que cada um possa se tornar um Buda….. Isso é o que Amida expressou nos 48 Votos e em especial no 18º.

[[[Mas e os seres imateriais, budas também são seres imateriais, certo?? eles existem mas não podemos provar, certo? fiquei confuso ao ver esse texto.]]]

Seres materiais e imateriais (podemos aqui até falar em espirituais e até divinos) ainda estão nos 6 planos da existência Samsárica. Lembre-se que até o mundo Celestial e os deuses ainda são Samsara. Só o Nirvana é perfeito. Por isso quando Shakyamuni se ilumina, Brahma, o mais supremo deus do hinduísmo vem até ele e pede que ele ensine o Dharma para o benefício dos homens e dos deuses. No Grande Sutra (Daikyô) o Buda é chamado de mestres dos Deuses e dos Homens. Portanto, a natureza de Amida é o Dharma sem forma, Eterno e sem limites. Ele se manifesta como forma “imaterial” para nos inspirar, mas não siginifica que ele “exista” como forma “imaterial”. Ele apenas a manifesta como se fosse uma realidade virtual, uma imagem holográfica. Ok? Por isso no Zen clássico existe uma expressão que causa choque em alguns dicípulos que recebem a instrução e partem para a vida de peregrinação:

– “Se você encontrar o Buda, mate-o”

Isto significa para eles que o Buda não pode ser algo externo, não pode estar fora. No Budismo Shin poderíamos dizer que se o Buda Amida aparecer na sua frente, em seu quarto durante a recitação, esse não é o verdadeiro Amida, é apenas uma projeção sua e por isso tem que transcendê-la….. compreender que até a natureza do Buda é o Vazio (Shunya) que é a natureza do Dharma.

[[[Diga ai, que achas??]]]

Acho que esse papo foi proveitoso. Um grande abraço e gasshô.

Rev. Wagner (Sh. Haku-Shin)

15/01/1960 – 27/03/2022

Namu Amida Butsu

Esta é a imagem que guardarei, o Dharma vivido alegremente nas mesas e conversas! O meu lado, outra pessoa incrível que também foi para a Terra Pura em 2021, Reva. Leninha. Do outro lado, Reva. Sayuri, minha irmã amada que trilhou por vinte anos ao lado de seu marido, amigo e irmão de Dharma. Aqui estávamos num restaurante em Quioto, em 2014, por conta de um treinamento de ritualística.