Em novembro de 2020, foi-me solicitado a refletir sobre a condição idosa e o Covid. Pensei em compartilhar algumas perguntas que me foram perguntadas por uma entidade social. Espero que contribua com suas reflexões!

Pauta Educativa Melhor Idade – 16/11/2020 – 09h

Tema: Olhar budista sobre as dores pandêmicas do idoso

1.0 O que é Budismo?

Budismo surge há 2600 anos com Sidarta, príncipe indiano e por suas inquietações, deixa seu palácio rumo a um Caminho de investigação sobre si, como funcionamos, como somos, e depois que ele morre o Budismo se espalha por quase toda Ásia, China, Japão Coreia e vem para cá com os imigrantes japoneses.

Budismo se preocupa com a questão dos sofrimentos e suas causas, não especula de onde viemos nem para onde vamos e se caracteriza como um caminho ora religioso, ora filosófico, plural em olhares, procurando promover nossa reflexão no macro e micro cosmo da vida. Buda fala inicialmente sobre as quatro verdades sobre a vida – 1 – o reconhecimento do sofrimento, do desequilíbrio, 2- desejo e apego, 3 – possibilidade de extinção e 4 – os oito caminho como solução. 

Ele postula diversos olhares éticos de cessação do sofrimento para atingir a elucidação (Iluminação) sobre a realidade – Impermanência, interdependência, causa e efeito, carma, etc.

“Nós odiamos o sofrimento, mas amamos as suas causas” (Shantideva, monge indiano, séc. VIII)

1.1 Como o Budismo enxerga o envelhecimento e a velhice?

Uma fase inevitável de tudo que é condicionado. Para o Budismo qualquer coisa ou ser é algo condicionado e impermanente em si. Somos seres interdependentes de inúmeros causas e condições propicias para haver vida. Na Primeira Nobre Verdade ele constata que o sofrimento advém da separação daquilo que amamos, da extinção daquilo que nós entendemos como eterno, da ânsia de desejarmos e não conseguirmos. Reconhecer e entender o sofrimento da vida é o primeiro passo para entender a existência em si.

No Jara Sutta ele diz: “Assim é como são as coisas, Ananda! Quando jovem, a pessoa está sujeita ao envelhecimento; quando saudável, sujeita à enfermidade; quando viva, sujeita à morte. O complexão já não é mais tão pura e brilhante, os membros flácidos e enrugados, as costas recurvadas; é possível discernir uma mudança nas faculdades – a faculdade do olho, a faculdade do ouvido, a faculdade do nariz, a faculdade da língua, a faculdade do corpo.” 

Mas ao mesmo tempo a vida está muito além da própria vida física, para o Budismo somos manifestações de uma Vida em muitas vidas, como ondas do mar que surgem, se formam e se desfazem sem nunca deixar de ter sido água. Creio que este seja a melhor forma de entendermos onde nos situamos neste mundo e no universo.

Buda fala em Honrar a ancestralidade, Tao-cho (séc. VI, China), um dos Sete Mestres da escola Terra Pura diz:

Os que vem antes guiam os seguintes, os que vem sem seguida miram-se nos quem vieram antes.

Buda, sutra – ‘A generosidade é boa’ ela dá a oferenda com o pensamento, ‘Isto foi dado no passado, feito no passado, por meu pai e avô. Não seria correto que eu permitisse que esse antigo costume da família fosse descontinuado’’

Experimentamos a vida na condição humana

Como é difícil nascer humano!

Os ensinamentos são espelhos para nós mesmos. Cada um de nós esforça-se em entender o que significa ser humano. Se ignorarmos esta questão, passaremos a vida em vão. Do ponto de vista budista, esta é a implicação da frase: “perdido nos ciclos de nascimentos e mortes.”

“Aprender” no budismo, significa investigar este eu que nunca foi investigado antes e questionar as próprias perspectivas e visão de mundo. Portanto, para nós, o eu e o mundo tornam-se objetos de interesse subjetivo. Ao aprender budismo, aprendemos sobre nós mesmos. 

Esta é a realidade – vivemos uma vez e a vida é insubstituível. No entanto, se evitarmos lidar com este fato e continuarmos presos pelo amor e ganância, a vida vai ser vazia e sem sentido. Despertar a mente que anseia a iluminação (bodhicitta), portanto, reflete nossa aspiração para descobrir o que é eterno e poder viver com alegria em meio à impermanência da vida. Esta aspiração é diferente de nossas motivações comuns. Ela nos chacoalha pela raiz e implora que retornemos à questão fundamental da vida. Esta busca espiritual – o caminho do Buda – é o caminho da auto-reflexão. Uma pessoa torna-se uma buscadora ao questionar a base de sua vida. Neste ponto, o anseio por uma vida verdadeira emerge para além da angústia, da dor e do sofrimento, ao perceber que “viveu a vida em vão”. Esta transformação, causada pela nossa aspiração mais profunda, perpassa toda a nossa vida e, quando acessada, nos faz buscar o caminho budista. 

Conta-se que o Buda Shakyamuni deu sete passos imediatamente após o nascimento e disse: “…Eu devo ser louvado como aquele que é mais digno de reverências do mundo!” Shakyamuni não está apenas louvando as suas virtudes, mas também está mostrando o aspecto mais importante da vida: cada um de nós deve descobrir-se e aceitar-se como a entidade mais preciosa que há. Nosso nascimento, portanto, é nobre. E creio que esta é a preparação para uma velhice menos sofredora.

Quando estamos ocupados com a nossa rotina diária, não questionamos o significado de sermos humanos. No entanto, quando somos pegos entre a vida e a morte, encontramos dificuldades que nos fazem refletir sobre o sentido da vida e entendemos que a vida está sempre em fluxo.

2.0 Nesses mais de 250 dias em distanciamento social devido ao coronavírus, na visão Budista, como o idoso pode enfrentar assa ansiedade, dor e sofrimento?

Ichigo ichie – este momento, uma oportunidade

Dois termos essenciais e conhecidos na cultura japonesa, para o Budismo são Compaixão e Sabedoria. Usar a compaixão no sentido de sofrer junto, sentir a humanidade do outro em si, é o princípio da alteridade, da empatia e dessa forma usar a sabedoria para proporcionar a melhor das condições por meio de ferramentas como internet, um celular, lap top para se manter juntos mesmo a distância, usar os recursos orientados pelos cientistas. 

Por exemplo, passei a falar com minha mãe via câmera, algo que só fazia via oral. Assinei canais de filmes e faço uma seleção para que ela assista, motivei a ela fazer atividades em casa com elásticos, a leitura, passear com o cachorro pelo prédio e recentemente fazer trico.

O ocupar-se é essencial para a dinâmica do idoso, e sobretudo reforçar a perspectivas da transitoriedade, aqui um ensinamento budista – se coisas boas acabam, as coisas ruins também passam – mesmo sabendo que eles entendem disso melhor que a gente, precisamos ilustrar sempre nas conversas essa esperança. 

Porém, há muitos ensinamentos do Budismo que podem ajudar, e práticas como a meditação do acalmar a mente em um lugar tranquilo, observar os sons, os cheiros, fazer uma respiração correta (a gente não respira mais direito né), se puder fazer isso alguns minutos por dia, uns 5, depois 10 e 15 já será suficiente para acalmar a ansiedade. Mesmo de casa, o idoso que tenha acesso à internet pode, por exemplo, no facebook ou youtube acompanhar diversas aulas de meditação on-line.

3.0 O Budismo pode ajudar o idoso cristão no desafio de enfrentamento do COVID-19? (como uma experiência de ascensão espiritual)

Para o Budismo Shin Terra Pura, a questão da fé, que chamamos de confiança (Shinjin em japonês) é primordial para o início do caminho da libertação do sofrimento. Creio que o idoso cristão deve ser motivado por seus parentes e amigos a se apoiar na esperança e nas palavras de Cristo que é o sentido da vida para um cristão. Confiar é um sentido de despojamento, onde não tenho controle sobre a vida na totalidade, vivemos muito um sentido de propriedade que tudo consigo e posso. E isso é uma ilusão. Logo, precisamos nos apoiar certamente nas orientações dos cientistas, dependemos uns dos outros, e aguardar essa fase que passará certamente.

Na minha fala anterior, há muitos ensinamentos do Budismo que podem ajudar, e práticas como a meditação do acalmar a mente em um lugar tranquilo, observar os sons, os cheiros, fazer uma respiração correta (parece que a gente não respira mais direito, né), se puder fazer isso alguns minutos por dia, uns 5, depois 10 e 15 já será suficiente para acalmar a ansiedade. Mesmo de casa, o idoso que tenha acesso a internet pode por exemplo no Facebook ou Youtube acompanhar diversas aulas de meditação.

4.0 Existe alguma mensagem ou conto Budista que pode acalentar o coração dos idosos e de seus familiares/cuidadores para este momento pandêmico que estamos passando?

“Ó Saiichi, onde fica a tua Terra da Plenitude?

Minha Terra da Plenitude fica aqui mesmo.

E onde fica a fronteira Entre este mundo e a Terra da Plenitude?

Os olhos são a fronteira.”

– Asahara Saiichi 

Gosto muito deste poema que mostra o ensinamento budista na sua base, tudo provém da mente e tudo retorna para a mente. A mudança de olhares pode trazer resultados consideráveis, mas isso nem sempre parte de dentro de nós, precisamos ser provocados, instigados, motivados e aí entra a figura dos familiares e amigos, da comunidade religiosa. Sabemos que muitos idosos são sozinhos na vida, a família se desfez ou se afastou, mas certamente existe aquele amigo, amiga, para se apoiar. 

Confiar, ou ter fé, para o Budismo é olhar com os olhos do Buda, daquilo que é iluminado, elucidado, esclarecido. E aqui aplicamos não só para respeitar os protocolos sanitários elucidados pelos cientistas, como passar a compreender a vida na sua interdependência e impermanência.

Mas aqui vemos também que a Terra Pura do Buda, que para nós é o mundo do Buda Amida nos acolhe e nos permite condições para seguir até nos tornamos Budas, está assegurado por sua Imensurável Compaixão, é o Sagrado para nós, a Vida Imensurável permeada de Luz Imensurável. A Vida se manifesta na vida, agora a Vida vive você. Confiar nesta profunda vida é como uma joia rara, nosso eu nos garante infalíveis, inatingíveis. Sofremos porque nos iludimos. O Buda Amida estabeleceu uma Terra em um passado imemorial para receber todos aqueles que desejam ir-nascer em seu país, seu campo iluminado, acolhe indiscriminadamente todos os seres, mas não no sentido de um paraíso de deleites, mas como um campo fértil em que nascemos como botões de flores de lótus e de dentro de cada botão um Buda irá nascer. Um Buda é um estado, um ser que transcendeu toda espécie de sofrimento, de dualidade, de desejo, de apego e sobretudo de condicionamento.

5.0 Na epistemologia budista, como lidar com as doenças demenciais que acometem os idosos e principalmente, como não se irritar diante dessa pessoa que amamos?

O Buda fala da interdependência de causas e condições de dos cinco agregados que chamamos skandas para que a existência ocorra – forma, sensações, percepções, formações mentais e consciência. A dinâmica, o equilíbrio entre eles resulta na identidade de um eu consciente que se afirma, eu existo. Havendo um desequilíbrio, este eu se perde.

O exercício da compaixão é fundamental. Da empatia, do sofrer junto. É o calçar um sapato menor que seu número para saber como dói no pé do outro. Um corpo é um composto, um aglomerado de inúmeros elementos físicos e cognitivos. Dependemos de um equilíbrio entre eles para que definirmos o que é vida, creio eu. Então compreender este desequilíbrio nos faz sentir e adentrar no corpo desta pessoa que sofre, é se colocar no lugar, de sua fragilidade, de sua impotência, da sua limitação diante da vida e sobretudo da dependência de outras pessoas para viver, assim como dependemos de tantos seres. Ela não escolhe ser assim, ela não é assim, ela está assim. A gente vê a vida como algo óbvio, alguém me serve, me atende, me presta um serviço pelo fato de pagar. O dinheiro não compra a vida ou a saúde, ele pode apenas facilitar o caminho para o cuidado. Mas esta pessoa não vive esta obviedade.