Transcendendo a Morte

Nossa vida é um tesouro inestimável. Cada dia que passa é um tesouro inestimável.

Nós desejamos viver, mas sempre somos ameaçados pela morte, por isso nós a tememos. Temer e rejeitar a morte é uma arbitrariedade, um ato de ignorância, uma violência para com as normas de valor relativo que o ser humano tem desde o seu nascimento. Por exemplo: ser ou não ser inteligente, ter ou não ter posses, ser bonito ou feio, etc, refletem normas de valor relativo. Portanto, quem se achar inferior, sentir-se-á ferido, mas quem se sentir superior, sentir-se-á orgulhoso. Buscar apenas o conveniente é perder-se.

Enquanto almejamos apenas os pontos positivos; por exemplo, saúde, abundância, inteligência, boa posição social e beleza, seremos ainda prisioneiros da visão relativa e conseqüentemente sofreremos e perderemos a liberdade. A morte é o primeiro e principal representante da nossa visão relativa. Nós a rejeitamos e a negamos. Existem muitos subterfúgios para negar a morte, tais como orar para tirar mau olhado, divinizar os mortos para consolá‐los.

Neste sentido, o Budismo rompeu com as normas das religiões e cultura japonesa tradicional, que rejeitava e considerava como impura a morte. O Budismo é uma filosofia que rompe com essas coisas, isto é, não rejeitando a morte e conquistando um mundo em que ela é transcendida.

O primeiro templo budista do Japão (Horyu-ji)

O exemplo dado pelo clã do príncipe Shotoku é uma prova histórica inegável da atitude de transcendência da morte. Perante uma situação de confronto com um clã inimigo, o clã do príncipe Shotoku optou pelo martírio. Não lutaram e foram destruídos. Não foi um ato de fraqueza, mas de força mostrando a determinação de seguir o ensinamento budista da não-­‐violência. Antes de morrer o líder do clã disse: “Abstenho‐me de lutar pelo poder imperial, para que o povo não sofra”.

O templo Horyu‐ji, que é o primeiro templo budista no Japão, foi construído em memória à força e coragem do clã do príncipe Shotoku, que soube transcender a morte. Desta forma o Horyu‐ji ficou conhecido como o templo do príncipe Shotoku.

O significado do templo Horyu-ji é templo que proporciona o pleno desenvolvimento do Dharma. Os templos antigos eram verdadeiros organismos públicos encarregados das relações exteriores. O templo dos Cavalos Brancos foi o primeiro templo da China e tinha essas funções. A palavra Tera ‐templo ‐ deriva do coreano “chol”, que significa repartição pública.

O significado do culto

O templo é o lugar de promoção do Dharma e de cultos. Esta tradição se conserva até os dias de hoje. O culto visa reverenciar o Dharma como o corpo. O gesto básico é o gasshô, que é a união das mãos na altura do peito. O gasshô é a forma tradicional de cumprimento na Índia. Significa o respeito e a confiança no outro. Junto com a imposição das mãos, é pronunciado a palavra “Namaste”, que é da mesma raiz de “Namu”, que encontramos no “NAMU AMIDA BUTSU”.

O Nembutsu ou a recitação do NAMU AMIDA BUTSU é a resposta aos nossos questionamentos e anseios existenciais. O gasshô que é a gesto de unir as mãos, tem como significado a união do nosso ser. Neste sentido o gasshô é uma prática necessária para um mundo conturbado e fragmentado como é a nossa época.

Se nós não estivermos unificados, estamos descentralizados e nossas vidas serão fragmentadas. Estamos aturdidos e não conseguiremos ver as nossas responsabilidades sociais. A plena satisfação é possível unificando-­‐se com a prática do gasshô.

O gasshô faz surgir uma gratidão libertadora, que nos liberta do pensamento discriminatório. Desta forma adquirimos um viver que transcende a morte. Viver e morrer não são coisas separadas. A vida e a morte geram-se mutuamente. Quem assim entende descobre Amida, isto é, o Absoluto Ilimitado.

Rev. Masao Ryose 

Rompendo as Amarras do Ego Uma introdução ao Budismo Shin

Tradução de Carlos Kajiya

Edição do Instituto Budista de Estudos Missionários Tempo Nambei Honganji