O Mestre Shinran estudou na escola denominada mosteiro Ichijô Shikan no Monte Hiei, que foi fundada no ano 818 pelo Mestre Denguiô Daishi, autor do texto Sange Gakushô Shiki. Este mosteiro dedicado ao ensino era reconhecido oficialmente pelo governo da época e foi a base da cultura espiritual durante 400 anos do período Heian.
Segundo o Mestre Denguiô Daishi, o peregrino que se dispusesse a estudar neste mosteiro seria considerado um tesouro nacional. O período de estudos totalizava doze anos. Neste período era necessária dedicação completa aos estudos para merecer o direito de estudar neste mosteiro. Neste mosteiro, estudavam tanto crianças como velhos e todos tinham o único objetivo de, através do estudo do Dharma transmitido pelo Buda, atingir o despertar para a verdade e a emancipação da condição humana e portanto a plena liberdade. Neste mosteiro, além do estudo, a prática era enfatizada.
Em relação à prática, temos que ressaltar que mesmo praticando da mesma forma que o Buda Shakyamuni, isto não significa que nos libertaremos do estado de ignorância, como aconteceu com o Buda. Neste sentido, segundo Sócrates, o importante não é a prática, mas sim o motivo da prática. Se a prática for feita com um coração egoísta, o ascetismo se reduz a mera formalidade. Diziam que na época que o Mestre Shinran estudava no Monte Hiei, o mosteiro estava em decadência. Estas contradições estimularam o Mestre Shinran a requestionar sobre o verdadeiro ser humano.
O mosteiro caiu ao ponto de ser um lugar de magia e práticas para benefícios egoístas e os estudos realizados não tinham uma relação com a vida real. Conta-se que este problema não era um problema apenas do meio budista, mas um problema generalizado. Isto ocorre quando a fé perde sua transparência e pureza. Referente a isso, o Mestre Tan-luan, em seu trabalho Lun‐chou afirma: “Uma ação sem sabedoria causa um resultado inverso”, ou, se não tivermos um método eficaz para perceber a essência da realidade (Hôshô) não conseguiremos atingir a Verdade.
A “Prática sem Sabedoria” significa uma prática feita com fins egoísticos. Uma expressão desta práticaegoísta é a oração pedindo graças (Kaji-kito).
“Não termos um método eficaz para perceber a essência da realidade” significa uma forma de atuar que não tem interesse pela relação das pessoas e pelo sofrimento das pessoas. A busca religiosa sem sabedoria pode incorrer em vários erros tais como levar uma vida profana e dessacralizada ou perder-se no mundo do estudo intelectual sem relação com a vida.
Shinran questionou profundamente estas questões sobre a visão do mundo, baseado no budismo. Temos uma citação do Grande Sutra: “O homem vive arrastado pelas paixões e nasce só, vive só morre só. E quando morre, vai para o mundo do prazer e do sofrimento. Esta vida é insubstituível e uma chance única”.
O ser humano que está vivendo dentro da solidão e paixões desenfreadas chaga a uma vida sem significado, não restando senão um grande vazio. O anseio de romper o “eu limitado” e o estado de impermanência é a decisão de atingir a Suprema Iluminação. Tal decisão é o despertar para a vida plena, cheia de significado, resultante de uma transformação radical. Este anseio difere dos desejos egoístas inerentes à condição humana.
O Budismo é um estudo introspectivo que busca a Verdade, um estudo que, tomando como problemática o eu e a vida humana em sua totalidade, empresta significado a essa totalidade a partir das bases.
Rev. Masao Ryose
Rompendo as Amarras do Ego Uma introdução ao Budismo Shin
Tradução de Carlos Kajiya
Edição do Instituto Budista de Estudos Missionários Tempo Nambei Honganji
