Com o nascimento, inicia-se a atividade humana, normalmente falamos que o início da vida ocorre no nascimento, mas será que de fato ocorre assim? O que haverá antes do nascimento?

Normalmente não nos ocorre perguntar sobre a condição do pré‐nascimento. Podemos dizer que antes do nascimento existe o mundo sem começo, onde estamos no estado de “Eu Infinito”. Nas palavras do filósofo Kyozawa Manshi: “Nós vivemos duas realidades: a vida e a morte”. Compreendemos desta forma a morte como apenas uma passagem, a vida e o retorno para a vida infinita que não tem início.

Então, dentro desta perspectiva, o eu, no intervalo do nascimento até a morte, fica separado do “mundo infinito”, como uma folha que flutua separada do grande oceano. A visão do isolamento do todo é um sentimento aterrorizador. Mas se meditarmos com profunda calma e serenidade veremos que este isolamento é um presente do mundo infinito para podermos nos conscientizar de que somos egos e, a partir desta conscientização, rompermos com este ego limitado e expandirmos nossa consciência. Então, podemos dizer que toda a minha existência está sendo carregada pela vida infinita. Quando morremos, nós não perdemos a vida infinita. Será que podemos entender este processo humano? Podemos perguntar por que ocorre o nascimento? Por mais que pensemos, não conseguiremos achar uma resposta satisfatória, porque é um emaranhado complexo de causas.

Mas, qual seria a finalidade de ter nascido? Será que nascemos simplesmente, vivemos, envelhecemos e morremos sem algo de especial? Se fosse somente assim, a vida seria vâ e teríamos sofrido em vão também. Se fosse assim, cairíamos em profunda depressão, não achando um sentido no viver. Mas, se percebo que o eu finito teve sua origem no mundo infinito, então começo a entender que nada é em vão e existem muitas causas para o meu nascimento. Podemos perguntar por que o eu finito teve origem no mundo infinito. O eu limitado teve sua origem devido a uma confluência múltipla de causas. Estas mesmas causas podem ser obstáculos na atuação da vontade. Estas mesmas causas impõe limites; tais como o envelhecimento e a morte.

Vida e morte, enigma incompreensível, que instiga o eu do ser humano a desvelar os seus segredos. O Buda e outros sábios foram os que desvelaram este enigma e aclararam a história do infinito sem começo. Mestre Shinran também desvelou o enigma da vida e da morte. Expressou nas seguintes palavras sua vivência: “Refletindo sobre o voto em que Amida meditou durante cinco kalpas, verifico que realmente ele se destina apenas a salvação de minha pessoa. Ah! Quão sublime é o Voto Original, nascido do desejo de salvar minha pessoa aprisionada nas teias do Karma!”.

(Tannishô – Conclusão Geral)

Temos a descrição do Voto Original no Grande Sutra da Vida Infinita, texto pelo qual Shinran teve grande apreço e respeito. O Voto Original de Amida é a realização do Voto Original do repositório da sabedoria (Hôzô).

A palavra Hôzô é formada por Hô, que significa Dharma ou a Verdade, e o Zô que significa Repositório da Verdade Infinita. Mas esta verdade não está revelada, está guardada. O ato de revelar esta verdade é o Voto Original de Amida. Desta forma, a vida infinita é o sustentáculo do meu eu, poderíamos dizer que é o Dharma. Então, eu, etc…, também sou o repositório da Verdade Infinita. Mestre Shinran teve acesso à Sabedoria abrindo as portas deste repositório. Vamos dar os primeiros passos para abrir as portas do Repositório da Sabedoria Infinita, cada um em si próprio.

Rev. Masao Ryose

Rompendo as Amarras do Ego Uma introdução ao Budismo Shin

Tradução de Carlos Kajiya

Edição do Instituto Budista de Estudos Missionários Tempo Nambei Honganji