Esta parábola é usada no budismo Shin para representar o Duplo despertar, sobre si e sobre o Dharma.

Imaginemos um poço e no seu interior uma pequenina rã rodeada por um imenso oceano. Uma vez que ela nunca saiu do seu lugar, desconhece totalmente a existência de um imenso oceano ao seu redor. No entanto, poderia ela saber que se encontra num pequeno poço? Saberia ela que o poço é pequeno e estreito? A sua ignorância sobre este fato possui uma dupla natureza; ela desconhece não somente a existência de um imenso oceano ao seu redor, mas também a própria natureza do mundo onde vive. Este é o significado da Dupla Ignorância. Como poderia ela saber que habita um mundo pequeno e limitado? Ela teria que sair do poço e vê-lo pelo lado de fora.Suponhamos que um dia um pássaro enorme sobrevoa ao redor do poço e encontre a pequena rã e diz: —

Olá, companheira, que pequeno e estreito é o lugar onde estás! Imagino que não sabes que há um imenso oceano rodeando tua casa?

A reação imediata da rã: —

Que estás dizendo? Um imenso oceano? Deves estar louco, pássaro estúpido! Muito pelo contrário, acho que este mundo é muito agradável e satisfatório para mim. Não me perturbes dizendo essas tolices e desapareça logo da minha frente!

O pássaro, ao ver a rã contrariada com o seu comentário, decide ir-se para longe. Com o passar do tempo, a rã começa a refletir sobre os comentários do pássaro naquele dia. Em outros momentos de sua vida, ouve o bater das ondas do mar nas paredes do poço. Gradualmente começa a desconfiar que realmente deve existir algo ao redor de seu pequeno poço e murmura: —

É bem possível que a estória daquele pássaro estúpido tenha algum fundamento. Pode ser que eu esteja equivocado. Pode ser que realmente exista algo ao redor deste lugar.

Assim, num outro dia quando o pássaro sobrevoa casualmente o pequeno poço, ela o convida para perto dela e diz: —

Olá! Como estás? Desculpa-me pelo que te disse naquele dia. Sinto que aquele comentário que fizeste naquele dia começou fazer sentido para mim. Desculpa-me pelo que fiz. Agora, que tal me levar para um passeio e mostrar-me este enorme oceano de que me tanto falaste?

O pássaro, ao ouvir o pedido decide atendê-la e a leva nas suas costas para um passeio pelo ar.Quando alcançaram uma certa altura a pequena rã olhou para trás e ficou impressionada ao ver a própria casa e exclamou alto: —

Céus! Que pequeno e estreito é meu lugar! Como é enorme e infinito o oceano!

Vamos agora examinar o que aconteceu com a pequena rã neste instante. A rã descobriu a natureza minúscula do seu mundo e a imensidade do oceano ao seu redor. As descobertas foram fatos simultâneos e totalmente inseparáveis um do outro. Exatamente como a sua ignorância era constituída de dois sentidos, também assim foi o seu despertar.

É importante assinalar neste exemplo que o Duplo Despertar da pequena rã não transformará o poço num lugar maior ou mais significativo que antes. O seu lugar sempre continuará sendo aquele poço estreito e pequeno. O que se transformou radicalmente foi a sua perspectiva de vida.

Quem é o Mau?, por Shuichi Maida