Se todos vão para a Terra Pura, significa que quando eu morrer, vou para o mesmo lugar que os assassinos, bandidos e pessoas que eu odeio?

Esta é uma indagação frequente e pertinente que gera uma certa repulsa àqueles que iniciam sua busca no Budismo Shin.

Didaticamente, esta é uma das afirmações feitas na apresentação do Budismo Shin para as pessoas. Se o buscador parar neste ponto, a Terra Pura é um local onde os maus desfrutam de uma espécie de paraíso sem merecer, sem se esforçar minimamente em viver honestamente, ser bom e não causar sofrimento a nenhum ser vivo. Sem expurgar os pecados e impondo sua presença indesejável àqueles que foram bons em vida. Em outras palavras, seria injusto eu ter que me misturar. Não cabe aqui discutir sobre discriminação e o conceito de Igualdade (Byôdô).

Se neste ponto, o buscador em vez de desistir, se vir instigado a seguir uma das práticas principais do Budismo Shin que é o Monpô (escuta do Dharma, dos Ensinamentos), perceberá que o 18º Voto de Amida exclui de sua salvação os que cometeram os 5 Malefícios e criticaram (distorceram) o Correto Dharma, causando entre outras coisas, a dissensão no Samgha.

Além disso, o Voto prossegue, é necessário ter o coração confiante, alegrar-se, desejar nascer na Terra Pura e recitar o nome de Amida. 

O 18º Voto é abrangente mas é condicionado. À primeira vista pode parecer contraditório, mas o Voto é extremamente compassivo. O Voto restringe para não causar sofrimento. Já pensaram o que seria a imposição de uma Terra Pura para quem acreditou a vida inteira num Paraíso cristão ou islâmico? O sujeito morre e não encontra seu Deus? E ainda por cima dá de cara com um genocida sendo recepcionado com pétalas de flores de lótus?

Mas e se o genocida ou qualquer outro ser execrável cumprir as exigências e enquadrar-se no seleto grupo dos salváveis como eu? 

Há de se considerar 3 pontos. Mestre Shinran aponta no Sutra da Contemplação para a salvação do Príncipe Ajase, aquele que cometeu todos os excludentes do 18° Voto e estaria irremediavelmente fora da Salvação, mas foi salvo através da contrição. Logicamente que o processo que o levou até chegar a merecer a salvação foi longo e penoso, passando necessariamente pela compreensão do Dharma. Em segundo lugar, o mesmo Sutra descreve as Terras Periféricas como o direcionamento para aqueles que mesmo com o coração confiante, desejando e alegrando-se em nascer na Terra Pura e recitando o Nome Sagrado, se continuarem com práticas de Poder Próprio, ou seja, ainda desconfiando ou duvidando do Outro Poder.

As Terras Periféricas permitem a contemplação da Terra Pura ao longe, não podendo adentrá-la para ouvir o Buda Amida, por cerca de 500 anos. E por fim, a questão do Estado de Não-Retrocesso. Uma vez merecedores da Terra Pura, atingimos diretamente o grau do Estado de Não-Retrocesso. Ou seja, não vamos carregando toda nossa mediocridade de seres plenos de Bonnô (Paixões Mundanas) para discriminar e incomodar-se porque o seu maior desafeto samsárico também foi pra Terra Pura e está lavando a roupa suja nas águas límpidas da Sabedoria. A Terra Pura é local de compreensão de todas as Verdades e de compaixão, reconhecendo inclusive os processos que levam o ser humano a desumanizar-se.

Assim sendo, não é todo mundo que indistintamente vai para a Terra Pura. Aquele que no mínimo não se arrependeu e almejou a salvação por Amida, não contemplará a Terra Pura. A Terra Pura não é coração de mãe que aceita todos. E você não vai para a Terra Pura pra continuar lá se achando melhor que a Dona Chica que atirou o pau no gato. E se a Dona Chica estiver lá, é porque ela se arrependeu do que fez e você compreendeu quais foram as causas e condições que levaram a isso. E o gato também estará lá, são e salvo, pois Amida não escolhe, não rejeita e não abandona.

Repost do blog da Reva Sayuri Tyo Jun