Corações tomados pelo Shōmyō – A Recitação do ponto de vista do Budismo (Revista Dōbō – novembro/2017)
O Ensinamento que vem ao nosso encontro
Nos Ensinamentos do Jōdo Shinshū, não é dito que somos “nós que nos voltamos em direção à Verdade”, pelo contrário, diz-se que ‘a Verdade vem de encontro a nós’. Portanto a ritualística (liturgia) e a recitação são o trabalho de Amida dirigido a nós e que se torna visível diante de nossos olhos. Se não conseguirmos assimilar a ritualística e a recitação como manifestação do trabalho de Amida neste mundo em forma de sons audíveis, reduziremos toda nossa prática litúrgica meramente a uma prática do Jiriki (Próprio Poder), voltada apenas para a obtenção de algum favorecimento ou resultado desejado.
O Mestre Shinran, em sua obra Kyōgyōshinshō nos diz:
“O Buda Amida pode tornar-se qualquer coisa para manifestar-se diante de nós”.
“Desta maneira, Amida Nyorai manifesta-se em vários corpos: Corpo de Retribuição (Sambhoga-kaya), Corpo de Manifestação e Transformação (Nirmana-kaya)”.
O Trabalho de Amida manifestado como Hôben – Meio Hábil Salvífico.
No Budismo podemos posicionar a recitação e a ritualística como Hōben – os Meios Hábeis Salvíficos – orientações que os Budas e Bodhisattvas empregam e manifestam para que nós, seres carregados de paixões mundanas, possamos ser tocados pelos Ensinamentos. Em verdade, o pensamento budista afirma que o Budismo em sua totalidade, é Hōben. Os Sutras e os Tratados budistas são escritos para serem lidos enquanto que a Ritualística e a Recitação são para serem enxergados e escutados. O mesmo ocorre com os templos e suas edificações. Obviamente, são resultantes da expressão humana (coisas feitas pelo homem). Se pensarmos somente pelo nosso lado de seres humanos, ou seja, ‘a partir da nossa posição’, o Gokuraku Jôdo – a Terra Pura da Suprema Alegria, acaba desvanecendo-se como um mero sonho.
E não é bem assim, somente aqueles que sentiram a Verdade manifestar-se, é que conseguem enxergar o trabalho do Tathagata Amida como Hôben. A atuação do Hôben pode ser confirmada quando conseguimos perceber o quanto nós somos tolos, o quão somos realmente gratos, e até que finalmente, conseguimos pedir perdão e dizemos Namu Amida Butsu para consequentemente nossas cabeças, finalmente se abaixarem.
Não é que o Tathagata Amida esteja em algum lugar. Amida é o trabalho que atua e faz nossas cabeças se abaixarem. A Verdade é um Hōben que se manifesta de ‘lá para cá’ assumindo inumeráveis formas.
O Hōben manifesta-se em inúmeros formatos para captar a sensibilidade humana. Amida Nyorai é o Buda que se transforma até mesmo na voz e no som do Namu Amida Butsu.
O que é o Shōmyō – a recitação?
O que fazemos em meio à escuridão total? Concentramos nossos olhos e apuramos nossos ouvidos, não é mesmo? Quem é que nunca teve a experiência de ficar paralisado de medo, quando alguém gritou atrás de nós para nos assustar?
Realmente os sons possuem uma força capaz de nos fazer mover, tanto como nos paralisar. A vibração do som é capaz de alcançar a parte mais profunda da existência humana, e é extremamente difícil controlar sua projeção. Pois falar em voz alta pode fazer as pessoas moverem-se, mas essa mesma voz também pode ser direcionada para incitar a violência.
Penso que podemos afirmar que a Recitação, é um cântico. O canto é o coração, o sentimento tomando forma. Não é que algo chamado ‘coração’, esteja em algum lugar. É o coração manifestando-se como melodia e ritmo através de um dispositivo amplificador que é a garganta. Desta maneira, a Recitação, não é uma canção composta por uma só pessoa, é a manifestação da alegria do encontro com o Buda, que toma forma.
O Shōshinge é exatamente o cântico da alegria do encontro com o Buda. O Mestre Shinran, escreveu no Kyōgyōshinshō, na parte que antecede o Shōshinge:
“Assim, refugiando-me nas verdadeiras palavras do Grande Sábio e voltando-me para os comentários dos veneráveis patriarcas, percebo a profundidade e a vastidão da benevolência do Buda e componho aqui o seguinte hino.”
(Versão do Autor: Aqui, conforme as palavras do Grande Sábio Honrado do Mundo, confirmando as palavras esclarecidas por muitos Mestres, crendo na incomparável e profunda retribuição do Buda, componho o Shōshinge.)
A parte final soa como se o Mestre Shinran nos conclamasse a cantarmos todos juntos. A recitação em coro do Shôshinge pode ser considerada como a audição dos Ensinamentos do Mestre Shinran, mas o ato de soltar a voz juntos e ao mesmo tempo e alegrar-se de corpo inteiro, não seria como se estivéssemos recebendo, destinatários que somos, do trabalho de Amida?
O Som Puro
A recitação e a Ritualística possuem pequenos detalhes em suas regras e formas, que se não forem respeitadas, própria recitação a ritualística não têm razão de ser. O fato de haver uma fórmula pré-estabelecida, permite ser repetida inúmeras vezes a fim de ser aprendida e assim produzir uma atmosfera maravilhosa.
Quando os Sutras são lidos, é como se nós escutássemos a voz de Shakyamuni, quando entoamos juntos o Shôshinge, é como se escutássemos a voz do Mestre Shinran e quando acompanhamos a leitura solene das Epístolas do Mestre Rennyo, é como se escutássemos a voz de sua boca. Construir e abrir este universo onde podemos escutar as vozes dos Mestres, é a função da recitação e da ritualística. A cada recitação, a cada rito, exprimimos repetidamente, o retorno ao local onde nos encontramos com o Buda e seu Dharma.
Para aqueles que já vivenciaram seu encontro com o Buda e seu Dharma, é na recitação e no rito, o momento de expressar sua gratidão e alegria. E por outro lado, para aqueles que ainda não tiveram o encontro, essas formas – recitação e rito – podem ser profundamente reveladoras.
As vozes em coro que recitam em uníssono o “Namu Amida Butsu”, assim como as vozes da recitação do Nembutsu no estilo “Bandō-bushi”, no Hō On Kō do Honzan, que bradam “Namu Amida Butsu” e ainda o Namu Amida Butsu que sai da minha boca – todas essas vozes compõem um mundo único. Mesmo sendo todas essas vozes, apenas vozes humanas, tornam-se e ecoam como um som puro que se manifesta a partir da Verdade e como tal, nos alcança.
“A voz sutil e alumbradora do Tathagata, Eco hialino, ressoa nas dez direções”. (Tradução: Prof. Rev. Ricardo Mário Gonçalves in “Cantares da Aspiração do Nascer na Terra Pura”).
(Versão do Autor: A voz sutil do Tathagata, ecoa puro, não havendo lugar que não alcance. In “Tratado da Terra Pura” – Editora do Higashi Honganji, “Shinshū Seiten” p. 137)
Sobre o autor: Rev. Futoshi Takehashi. Nascido em 1962 em Hokkaidō, Japão. Doutor pela Universidade Ōtani em Estudos do Budismo. Após atuar como pesquisador no Instituto de Pesquisas Budistas do Higashi Honganji, atualmente é orientador do Departamento de Ritualística da Ordem Shinshū Ōtani-ha, lotado no Honzan em Kyôto.
Repostagem do blog Bonno Gusoku no bonbu
O Shōmyō – a Recitação é a manifestação do Buda em forma de ōôben – Meios Hábeis Salvíficos. E também é o encontro com o Buda e a alegria desse encontro que tomam formas.
Texto: Rev. Futoshi Takehashi
Versão: Rev.ª Sayuri Tyō Jun
