Não se trata apenas de um item de ornamentação do Altar, tanto a voz na recitação dos Ritos, assim como o coração daqueles que realizam os serviços litúrgicos, tudo isso é a representação da herança ininterrupta do Nembutsu que nós herdamos.
As origens da recitação da Ordem Otani
Sobre a Ação de Graças (Hô On Kô), o Mestre Kaku-Nyô [1] escreveu em sua obra Gaijashô [2]:
“O que é essencial para estabelecer a linhagem, no entanto, é estabelecer o momento da convicção em que se obteve o ‘Shingyô’ [3]- a Fé do Outro Poder para o Nascimento na Terra Pura. Como também para demonstrar a relação respeitosa entre o mestre e o discípulo e para expressar até exaurir-se toda nossa gratidão à benevolência do Buda.” (Seiten – p. 677)
Os Ritos de Hô On kô (Ação de Graças em Memória do Mestre Shinran) exprimem a nossa gratidão a começar, ao Mestre Shinran e todos os demais Mestres que sucederam a tradição, ou seja, a ação de graças é o oferecimento de nossa gratidão à benevolência do Buda. Na nossa matriz Higashi Honganji, em Kyôto, todos os anos é celebrado durante 8 dias, os Ritos de Hô On Kô, é a herança do Nembutsu, a qual todos nós sucedemos.
O Mestre Shinran foi criado dentro da Escola Tendai, recebeu a doutrinação do Mestre Jien [4] e herdou a liturgia da Escola Tendai. O sistema litúrgico budista do Japão foi estabelecido após o retorno dos Mestres Saichô [5], Kûkai [6] e Ennin [7] do país de Tang na China no período compreendido entre 804 a 838. Devido aos esforços destes mestres, estabeleceu-se a liturgia como ofício.
Historicamente, a Liturgia da Escola Tendai foi estabelecida pelo Mestre Jikaku Daishi (Ennin). No início a liturgia era passada por transmissão oral, mas cerca de 200 anos após Ennin, o Mestre Ryônin (1073-1132) foi quem codificou e definiu os símbolos e marcações das partituras litúrgicas. Nessa época se estabeleceram os chamados Doutores em Liturgia (Fushi-Hakase [8]) que definiram a melodia e entonação das recitações. Logo depois, os Mestres Hônen e Shinran herdaram a Liturgia da Escola Tendai.
Na Escola Jôdo Shinshû, foi o Mestre Rennyo quem formalizou os ofícios, mantendo as fórmulas consagradas anteriormente, acrescentando ainda a recitação do Shoshingê, o Nembutsu e os 3 volumes de Wasan. Essa sistematização da liturgia foi promulgada em março de 1474 (Regulamentos sobre a Ritualística do Honganji). Depois, a Escola Shinshû, na época do mandato do 12º Grão Mestre, Kyônyo Shônin, foi dividida em Nishi e Higashi Honganji. Após a separação, a Ordem Otani passou a transmitir os usos e costumes determinados pelo Mestre Rennyo, enquanto o Honganji-ha (Nishi Honganji) na época do 14º Grão Mestre, Jakunyo Shônin, adotou um sistema próprio de liturgia num estilo mais parecido com o dos Mestres da Escola Tendai.
Os sons das cinco notas musicais harmonizam-se naturalmente com todos os sons.
Para a nossa Escola Shinshû Otani-ha, a ritualística se presta a reverenciar o Buda e os Mestres, a recitar os fundamentos da doutrina e os ensinamentos do Buda Shakyamuni e louvar de todo coração as Graças recebidas do Buda Amida. Ou seja, a execução da cerimônia, origina-se na Doutrina, ocorrendo dentro do conjunto de ornamentos do altar. Os ornamentos referem-se aos “Ornamentos da Terra Pura”, que são a manifestação da própria Doutrina. Tanto os ritos e cerimônias como a recitação e a etiqueta litúrgica, têm que estar em conformidade com a lógica e a razão.
Dentro dos Wasan do Mestre Shinran, encontramos o seguinte:“
Quando a pura brisa sopra entre as árvores de joias, produzindo os sons das cinco notas musicais, cada um se harmoniza naturalmente com os outros. Reverenciemos Amida que é o Puro e Meritório Ser.” (Shinshû Seiten p. 482)
Sopra um vento puro dentro da imensa e imensurável floresta da Terra Pura, neste momento, o som do farfalhar das folhas de tantas árvores, o canto dos pássaros, nós recebemos todos estes sons como sendo a voz do Buda. E esse som naturalmente puro, revela-nos o mundo da harmonia. Ou seja, é a voz límpida do Buda, que de um lugar que ultrapassa nossos corações desarmônicos, nos unifica harmonicamente, e este mundo é onde todos os sons se harmonizam naturalmente.
Todos os Ornamentos do Altar proferem o Dharma
Nas palavras do Rev. Daiei Kaneko: “Quando os objetos se movimentam, provocam sons, mas o movimento do coração também causa sons”. Quem ler estas palavras sem conhecer o coração contido nos Wasan ou o esforço do Mestre Shinran em compô-las, estas não surtem nenhum efeito em quem as escuta. Rev. Kaneko ainda nos indica que para o Shômyô (recitação) existem 8 tipos de sons. O volume dois do Grande Sutra da Vida Imensurável cita as oito sonoridades maravilhosas que ecoam e se expandem (Seiten p. 48). Para estes oito sons, existem 12 peculiaridades, que são: pureza, causar boa sensação aos ouvidos, aliviar o coração, ser adorável, suave, fascinante, confortante, não contrariar os ouvidos, ser extraordinariamente sossegado, provocar o vazio absoluto, profundo e fácil de ouvir. Essas são as características dos oito sons. São chamadas de Voz Límpida ou ainda de Bon-on [9].
Isso tudo é a Voz do Buda. O Rev. Kaneko reagia de forma muito estimulante a este assunto, dizia que seria tão bom se realmente tal voz pudesse ser emitida.
Dentro das considerações sobre o Shômyô (Śabda-vidyā) do Buda Shakyamuni [10], tanto aquele que recita como aquele que ouve a recitação, juntos enriquecem o corpo e a mente. Esta é a virtude chamada de voz humana, penso que é a virtude com que se deveentoar a recitação. A recitação é um ornamento fundamentado na Doutrina, ela e os estudos não são coisas distintas, são inseparáveis. Gostaria que a recitação fosse realizada levando-se em conta tudo isso.
Existe uma frase do Rev. Kensho Seo que diz: “Todos os Ornamentos do Altar proferem o Dharma” (Revista Dôbô Bukkyô, n. 318). Não só os ornamentos, mas também a voz nos serviços litúrgicos, assim como o coração daqueles que servem nos ritos, todos juntos sucederam em herança ininterrupta, o Nembutsu. Tocados por esses aspectos da forma, a voz e os movimentos, abre-se diante de nossos olhos o Mundo Imensurável do Tathagata, surge a lembrança do Gyakushin [11] “A Fé recebida através do Voto Original de Amida”.
Deste modo, a ritualística, como os ornamentos do altar, assim como a recitação, são unos, tornam-se unificados. É desejável que o serviço litúrgico seja realizado normalmente sempre com o coração voltado para a expressão
“Todos os Ornamentos do Altar proferem o Dharma”.
Repostagem do blog Bonno Gusoku no bonbu
Texto: Rev. Kôjun Sugao (Superior do Templo Kômyô-Ji, prefeitura de Kyôto)
Tradução e Notas: Sayuri Tyō Jun
Jornal Nagoya Gobô – vol. 607, fevereiro de 2017, p. 03
