Olhando profundamente dentro do coração de todos os seres, Sidarta atingiu a compreensão das mentes de cada ser, não importando onde estivessem, e foi capaz de ouvir os apelos de todos, fosse por sofrimento ou por alegria. Ele atingiu o estado de visão pura, audição pura, e a habilidade de superar a distância sem se mover. Agora, era o final da terceira vigília, não haviam mais trovões. 

As nuvens deslizaram pelo céu, revelando o brilho da lua e das estrelas.Gautama sentiu-se como se uma prisão que o havia confinado por milhares de vidas tivesse se aberto. A ignorância era o carcereiro. Devido à ignorância, sua mente tinha estado obscurecida, assim como a lua e as estrelas eram escondidas pelas nuvens da tempestade. Encoberta por infindáveis ondas de pensamentos iludidos, a mente havia falsamente dividido a realidade em sujeito e objeto, eu e outros, existência e não existência, nascimento e morte, e destas (falsas) discriminações emergiam as visões equivocadas – as prisões dos sentimentos, ânsias, avidez, e vir a ser. 

Os sofrimentos do nascimento, velhice, doença e morte apenas tornavam mais grossas as grades da prisão. A única coisa a fazer era dominar o carcereiro e encarar sua verdadeira face. O carcereiro era a ignorância.  E o meio de sobrepujar a ignorância era o Nobre Caminho Óctuplo. Uma vez que o carcereiro fosse desmascarado, a prisão desapareceria para jamais ser reconstruída novamente. O eremita Gautama sorriu e sussurrou para si mesmo: “carcereiro, agora eu o vejo.

Por quantas vidas você me confinou em prisões de nascimento e perecimento? Agora, porém, diviso sua face claramente e, deste momento em diante, você não poderá mais construir prisões ao meu redor”. Elevando o olhar, Sidarta viu a estrela matutina aparecer no horizonte, cintilando como um diamante. Ele havia visto a estrela muitas vezes antes, enquanto sentado sob a árvore pipal, mas, nesta manhã, era como vê-la pela primeira vez. Ela estava luzindo como um jubilante sorriso de iluminação. Sidarta olhou para a estrela e exclamou de pura compaixão:

 “Todos os seres são portadores da semente da iluminação e, ainda assim, nós vagamos no oceano do nascimento e morte por muitas centenas de milhares de vidas!”

Sidarta sabia que havia encontrado o Grande Caminho e, naquele instante, seu coração experimentava perfeita paz e alívio. Ele divagou sobre seus anos de busca e prometeu encontrar um meio de compartilhar sua descoberta para ajudar todos os outros a se libertarem do sofrimento. Da sua profunda compreensão emergiu um profundo amor por todos os seres. Ao longo das verdejantes margens do rio, flores coloridas desabrochavam com a aurora. O sol dançava nas folhas e se refletia sobre as águas. Sua dor havia ido. Todas as maravilhas da vida se revelaram.