‘Budistas podem celebrar o Natal?’ Sim, claro, não digo no sentido religioso, mas humano da mensagem. A Terceira Joia do budismo é o Sangha, a Comunidade, e podemos entender como Fraternidade, o conviver em harmonia e respeito. E é fim de ano, queremos ressignificar nossas vidas, fazer reflexões, e inevitável o cheiro do assado da vizinha e luzes na rua não tocarem a gente.
 
‘Mas e os presentes e esse consumismo, onde ficam nos ensinamentos do desapego e desejo?’ O problema não são os presentes e o consumo, mas como você se relaciona com eles, tenha um equilíbrio entre desejar e satisfazer, não são eles quem comandam você, faça o inverso, sem apego e dependência causando sofrimento. Desapegar-se não é desinteressar-se, é o deixar ir.
 
‘E a ceia, os budistas não são vegetarianos?’ Não, a grande maioria não, vá para a Ásia e mudará de opinião, lembra do rodízio japonês que você curte ir com amigos? Há os que são por outras leituras, mas não é um dogma. A todo instante, mesmo na cadeia do vegetarianismo, estamos matando algum ser. Tenhamos gratidão e compaixão por aquele que se foi e nos alimentará.
 
Lembro do episódio de Natal da Lisa Simpson quando decide se tornar budista, se torna vegetariana, rejeita presentes, prefere meditação a montar árvore (Richard Gere aparece no episódio) e no final acaba se isolando. Lisa é antes uma criança, além de qualquer princípio religioso. Mas prodigiosa, ela percebe que a essência não está nos dogmas, e sim na fraternidade, na união da sua família desajeitada e seus amigos, e na mensagem do Natal impregnada de amor, a paz, a solidariedade. É, antes, um momento de reflexão no sentido de coexistir na diversidade na pluralidade.
 
‘O que Buda pensa de Jesus?’ Nada, Buda nasceu 600 anos antes de Cristo. Como grandes exemplos de compaixão, justiça, acolhimento e equanimidade, ambos são eternos mestres a seguir. Nunca li a bíblia, mas cresci ouvindo sua mensagem do amor ao próximo, da não violência, do amparo.
 
‘É, mas os cristãos não celebram o Vesak ou Hanamatsuri conosco’. Nada de troca espiritual, religiões estão apenas especulando sobre a vida, são meios hábeis (sânsc. upaya/ jap. hoben) buscando respostas e criando narrativas para este grande mistério dito Vida. Não temos resposta definitiva, mas desejamos saber o que fazer com tudo isso e sair da espiral dos sofrimentos.
 
O budismo se adaptou historicamente em novos territórios e conversou com outras crenças. Podemos reinterpretar o Natal com os ensinamentos do Buda Shakyamuni, interdependência, impermanência, causa e efeito, upayas, nirvana, etc. Então, pare de dar uma de Lisa Simpson e vá curtir o Natal com sua família!
 
Feliz Natal aos amigos cristãos, e não cristãos!